Volta à Ilha 2017 – Dupla Born to Run


É terceiro!!! Cadê a minha IPA? Luciano, me dá isso logo! Que maravilha, que delícia de gole foi aquele. Meus olhos rolaram de prazer. Só tinha uma posição sem dono naquele pódio, um lugar a ser disputado. Salvo desastre com as duplas favoritas, é o que poderíamos almejar. E conseguimos. Esse terceiro lugar era nosso. Nosso com autoridade. Que dia incrível. Não quebrei! 

Na quarta-feira minha planilha pedia uma rodagem em ritmo leve de uma hora. Fiz o aquecimento até a pista da Tigre em Joinville e ao chegar lá comecei a dar algumas voltas, mas não me contive. Aos poucos fui acelerando e durante 20 minutos corri um pouco mais forte. Ao chegar em casa e fazer o upload do meu treino vi que corri 5 km abaixo de 17 minutos. Sem fazer muita força. A melhor forma está de volta após meses lidando com as consequências de uma queda de bicicleta causada por imprudência minha. A confiança em um bom desempenho no fim de semana aumentou. O Volta à Ilha é uma corrida que eu adoro, e fazer em dupla é um desafio grande. Disputar uma vaga no pódio ainda mais. Para isso eu contava com o melhor parceiro que poderia ter, o Anderson Floriani, conhecido como o Esquerda. Da dupla eu sou o velocista, o puro sangue. Ele a cabeça, a experiência, o estrategista. Inclusive antes do sábado já tinha conseguido um terceiro lugar em 2015 e em 2016 correu com a Cissa Ramos e terminaram em quinto lugar, a quarenta segundos do quarto lugar, uma dupla masculina. Com o Anderson herdei toda a logística e planejamento para a prova. Contamos com o apoio do César Zaniboni na moto, o Raphael Coelho e o Everton Sasse no carro. 

Alguns finais de semana antes treinamos juntos, simulando os trechos, com exceção dos últimos três. Em um desses treinos o Anderson sentiu bastante uma lesão que o acompanhava desde fevereiro, um edema em um pequeno osso do pé direito. Após consultar seu médico decidiu parar completamente de correr por 20 dias pelo menos. Seguiria com treino em bicicleta e fazendo fortalecimento. Enquanto isso eu continuei meus treinos, trabalhando principalmente a velocidade, algo que eu não fazia há tempo.

Uma semana antes da corrida liguei para o Anderson para saber como ele estava. Sinal verde. Não sei ainda se ele me disse toda a verdade. Acho que ele disse o que eu precisava ouvir. É o cérebro da dupla, não disse?

E assim chegou o grande dia. Há semanas incorporei a rotina de acordar entre quatro e cinco horas da manhã, o horário em que aconteceria a nossa largada. Disposto, fui para a largada em jejum. Chovera bastante na noite anterior, mas quando cheguei na Beiramar já não chovia mais. Nesse momento procuro a serenidade. Estava calmo e confiante. Anderson avisou que havia uma outra dupla de Goiás que poderia ser muito forte. Isso me deixou um pouco ansioso, confesso. Chegou a hora de mostrar as cartas.

Pontualmente às cinco da manhã largamos sob forte chuva. Com uma certa relutância, logo nos primeiros metros eu liderava. Não demorou muito para ouvir passadas fortes se aproximando. Um estilo de correr muito diferente do meu. Primo pelo silêncio, pela leveza. A minha aspiração é não deixar pegadas. Velocidade não necessariamente fala esse mesmo idioma e os verdadeiros puro-sangues passaram. Cleiser e Elson afastaram-se lentamente. Até agora tudo como esperado, favoritos na frente. Não senti a presença de outros corredores e segui adiante, sem olhar para trás. É raro quando olho para trás. Completei os dez primeiros quilômetros em 36min45s. O Anderson aguardava com um grande sorriso. Os aplausos na chegada do posto de troca eram efusivos. Que adrenalina!

Primeiros quilômetros sob forte chuva. Foto: Foco Radical

Antes de largar novamente em Santo Antônio, o César informou que o Anderson havia perdido dois dos quatro minutos que eu havia aberto no primeiro trecho em relação à dupla que vinha em quarto lugar. Minha confiança era tamanha, tinha a certeza que se eu abri quatro minutos no primeiro trecho, abriria novamente. Esse trecho é literalmente o quintal da minha casa na adolescência. É onde a minha mãe mora e onde eu treino regularmente nos fins de semana. Após ver o Anderson novamente chegando com um sorriso no rosto eu parti com muita vontade. Cada curva era um velho amigo, as paisagens, pequenas subidas, todas conhecidas como a palma da mão. Cheguei no fim do Sambaqui e logo tratei de pegar o banana boat rebocado pela lancha em direção à Daniela. Queria muito chegar lá antes da dupla que estava em quarto. Isso psicologicamente é uma grande vantagem. Quando você perde o objetivo de vista, fica mais difícil alcançá-lo. Minha tarefa era sair da vista de quem vinha atrás. Montei na banana e fiz brincadeiras com os outros participantes de octectos. Boraaaaaaa! Geralmente sou mais sério durante a corrida. Inexplicavelmente brincava, sorria, sentia-me sem peso algum. Não me reconhecia. Antes de descer da banana na Daniela perguntei ao pessoal da organização pela escadinha, pois não queria molhar mais os pés. Todos riram. Para completar o trecho restavam três quilômetros de praia. Ao passar pelos árbitros perguntei se poderia continuar, ao que responderam “Já está valendo!”. E fui. Novamente senti passos aproximando-se. Isso eu não entendi. Será que a dupla em quarto já me buscou? Olhei brevemente para trás e não reconheci de imediato o corredor. Será que é alguém forte de um dos octectos da categoria participação? Forcei o ritmo e mesmo assim os passos não cessavam. Enfim reconheci o Cleiser ao meu lado. No meu afã de subir na banana não percebi que ele já estava lá. Alívio. Terminei o meu segundo trecho poucos segundos após ele passar pelo posto de troca. O Anderson sorriu e pediu para eu economizar no esforço. Esse pedido seria repetido algumas vezes. Parece que não me conhece…

No quintal de casa, trecho entre Santo Antônio e Daniela. Foto: Foco Radical

O intervalo até a minha próxima corrida era curto e subi na moto com o César rumo à Jurerê. Nesse posto de troca pude ver o outro corredor da dupla André Villarinho. Ele corre com uma facilidade impressionante. É um prazer observar e tentar emular. Até o estiloso bigode me deu uma pontinha de inveja. Quando o Anderson chegou, a turma do André Villarinho tinha sumido. Agora somente os veríamos na chegada.

O Anderson pediu para eu economizar, de novo. O trecho 5, meu terceiro do dia, ocorreu sem nenhum problema, mas as pernas já acusavam um pouco o esforço feito até agora. Mesmo que eu não quisesse atendê-lo, não teria outra possibilidade. Ainda estávamos compartilhando a presença da dupla quarta colocada nos postos de troca. Essa presença não nos deixava fraquejar.

Sozinho na Daniela. Foto: Foco Radical

Até esse momento não havia reparado na corrida da minha dupla. Após entregar a pulseira para um Anderson sorridente, que iniciava um trecho difícil de dez quilômetros, com praia, asfalto e trilha, percebi o quanto ele estava mancando. O Esquerda agora era chamado pelo César de Leste-Oeste, Norte-Sul. Rebolava de um lado para o outro, para frente e para trás. Pensei que não conseguiríamos continuar. Ainda era cedo demais para eu começar a dobrar trechos. Teríamos que abandonar. Ao mesmo tempo nunca passou pela minha cabeça pedir para o Anderson continuar em uma situação que poderia agravar sua lesão. Deixei essa decisão a seu encargo. Ele era o melhor árbitro da situação. Meus dentes rangiam ao vê-lo. Não queria olhar muito.

Um trecho mais longo permitiu com que eu colocasse gelo sobre as pernas. Bebi, comi uma banana e algumas castanhas. Um pedaço de focaccia de cogumelos paris com asparagus. Uma delícia. Apreciei a paisagem. Ao contrario das minhas participações anteriores no Volta à Ilha, dessa vez éramos alguns dos primeiros a passar pelos postos de troca. Havia poucas outras equipes. Banheiros limpos, tranquilidade.

O Anderson chegou no posto de troca dizendo que estava muito bem, que estava forte. Chegou sorrindo. Quem seria eu para duvidar? Isso novamente não só me encorajou, mas também fez com que eu me esforçasse para fazer merecer o esforço que ele realizava em condições tão adversas. De acordo com o nosso planejamento era hora de dobrar os próximos dois trechos, quase dez quilômetros, oito dos quais de praia e dois de trilha. Por isso parti com um calçado que pouco uso, mas que protege bem os pés. Minha preocupação maior era não sofrer algum tipo de lesão na trilha. A corrida na trilha foi boa, procurei não cometer excessos. Ileso não saí, porque em certa hora agarrei um arbusto com a mão esquerda para manter o equilíbrio e fui saudado com espinhos que fizeram um corte em dois dedos. Sangrou bastante, mas não havia tempo para ponderar. Eventualmente as plaquetas se encarregariam do trabalho. Ao sair da trilha corri um pequeno trecho de tênis e logo em seguida encontrei o César, a quem os entreguei. Segui com meias e assim permaneci por boa parte do dia. Correr com meias foi uma decisão muito acertada. A proteção oferecida contra abrasão da areia foi bem-vinda, ao mesmo tempo em que pude manter os pés leves e livres, sem receio de se molharem. Isso é essencial na hora de escolher a melhor linha para correr na praia, que não raramente é na água.

Metros antes de entrar na trilha entre a Brava e os Ingleses. Foto: Foco Radical

Ao chegar no posto de troca do Santinho sentia-me bem, um pouco cansado, mas ainda forte. O Anderson pediu para eu economizar. Comigo isso é difícil. Portanto tratei logo de me hidratar e repor os eletrólitos. Essa geralmente é minha maior preocupação. Perco muitos desses sais com o suor e é essencial fazer uma reposição em atividades que excedem duas horas. Nesse momento eu já havia corrido 33 quilômetros aproximadamente. Restava mais da metade planejada.

O salto a caminho do Santinho. Foto: Foco Radical

A moto foi essencial para a nossa logística. O transito naquela região é complicado e sem a moto teríamos um risco grande de não chegar a tempo no próximo posto de troca. O trecho seguinte era o da Praia do Moçambique. Essa praia é bem difícil e o fenômeno climatológico conhecido como Lestada piorava a situação. Isso ficou evidente assim que comecei a correr. Em cima, embaixo, não encontrava areia dura. Por vezes as ondas do mar quase me derrubaram. Brevemente olhei o meu relógio para verificar o ritmo e me surpreendi positivamente. Pensei que talvez estivesse cometendo um excesso de força para manter aquele ritmo e que a conta viria. É preciso tranquilidade e paciência para esperar o tempo comer a distância, o longe tornar-se perto. O bom discípulo é recompensado. Cheguei no posto de troca cansado, mas feliz. Havia alcançado o mesmo ponto em que eu abandonei o Volta à Ilha no ano anterior. Dessa vez nem entretive o pensamento.

A felicidade foi breve, pois enquanto o Anderson seguia pelo asfalto até a Joaquina, eu tinha pouco tempo para me recuperar para um novo trecho, dessa vez da Joaquina até o Novo Campeche. De novo uma praia difícil, no dia mais difícil que o Moçambique. Peguei carona na moto e o carro seguiu diretamente ao Novo Campeche. Por isso estava sem comida e um pouco cansado já. Felizmente tomei um caldo de cana patrocinado pelo Everton. Ainda não o paguei de volta. Ao chegar na Joaquina, achei um gramado, deitei e coloquei as pernas para cima sem ao menos tirar o capacete. Ali fiquei durante uns oito minutos. Era o tempo que eu tinha disponível.

O Anderson tratou logo de chegar. A cada troca, mais uma confirmação de que ele se sentia bem. Quem seria eu para duvidar? O primeiro quilômetro foi bom, areia dura, mas depois… Depois foi uma briga constante para conseguir avançar. A cada passada um grande esforço. Escolhi correr praticamente dentro da água, o que exigia que eu levantasse muito os joelhos para evitar arrastar água com os pés e ficar muito lento. Funcional no meio de uma prova de revezamento de 140 km. Maravilha! A alternativa era correr na areia fofa. Isso me enterraria literalmente, tenho certeza.

Corrida aquática para evitar a areia fofa. Foto: Foco Radical

Aos poucos o posto de troca no horizonte ficou maior até que estava maior do que eu. Fizemos a troca e o Anderson percebeu o meu cansaço. Sabia o que o aguardava. Seria o primeiro trecho dele nessa areia miserável. Era o momento de maior dificuldade da prova.

Seguimos para a Praia da Armação. Finalmente iria voltar a calçar tênis. Em retrospecto talvez deveria ter adiado essa decisão por três quilômetros, justamente a extensão da praia. Praia maldita para correr. Acredito que cometemos um pequeno equívoco e nos colocamos no posto de troca com muita antecedência. Eu pronto, em pé, cansado e deixando de me recuperar adequadamente. Como antecipado, o Anderson demorou mais do que o previsto e quando chegou, pela primeira vez senti sinais de estresse nele. Disse que a praia o quebrou. Ele ainda tinha dois trechos pela frente, assim como eu, mas estávamos na reta final e agora não era a hora de fraquejar. Resoluto parti com a companhia de um cão amigo. Foram os quilômetros mais difíceis do dia. Corria em areia seca, mas completamente fofa. Irremediavelmente fofa. Ao correr novamente no asfalto percebi que a força de outrora já não era. O sofrimento era grande. As pernas pesavam. Engoli o orgulho e segui com um ritmo que o corpo permitia. Nos quilômetros de areia havia deixado boa parte das minhas reservas. No caminho de asfalto entre os Açores e o Pântano procurei pelo carro de apoio, procurei pela moto. Queria tanto beber água, comer alguma coisa. Procurei em vão. O tanque estava vazio e correr assim por muito tempo poderia colocar um fim na minha participação. Foi um momento tenso. Cheguei a cogitar parar em um caldo de cana e pedir fiado, mas parecia que o local estava sem gente. Então continuei. Ao chegar na praia do Pântano do Sul senti um alívio muito grande. Sabia que alcançaria o posto de troca em breve e que procuraria cuidar da minha fome. Assim fiz. Agora era a vez do Anderson descascar um abacaxi imenso chamado Morro do Sertão. Se tinha alguém capacitado para isso era ele.

Enquanto isso tratei de comer. O restaurante Nutri na Armação foi o local ideal. Teve arroz, feijão, abobrinha, farofa, um pedaço de queijo coalho e dois sucos de banana com açaí. Era o que eu precisava, e muito. Com a barriga cheia fiquei mais animado e pronto para encarar o último trecho do dia, 15 km entre a Base Aérea e a Baía Sul. Um trecho que eu conhecia do Volta à Ilha de 2015. Quando chegamos ao posto de troca encontrei alguns amigos, achei um banco e deitei. Fechei os olhos e procurei descansar o máximo que o tempo permitia. O Anderson estava a caminho! O Everton acompanhou ele durante o percurso e chegou antes para me avisar que era hora de ficar pronto.

Um momento de buscar a tranquilidade e descansar antes do último trecho. Foto: Raphael Coelho

Mais um sorriso. Esse Anderson não se abala jamais! Saí forte. Forte demais. Com menos de um quilômetro comecei a sentir dores em todo o abdômen. Diminuí o ritmo e aguentei. Tinha que me manter em movimento, na direção do outro posto de troca. Foi cansativo e o meu semblante não escondia o esforço do dia. Sorte a minha que o César fez algumas paradas ao longo do caminho na sua moto para me ajudar a hidratar. O seu “Bora Garoto” era música para os meus ouvidos. E aí o César sumiu. Os últimos seis quilômetros foram soltários. Apesar da dificuldade apreciei o momento. Não via ninguém à minha frente, tampouco atrás. Mantive um ritmo constante, concentrado para alcançar o objetivo que estava próximo. Que alegria ver a passarela que marca o fim do trecho. Com a tarde já avançada, fui recebido com aplausos e fiz a última troca. O Anderson partiu rumo à Beiramar. E fomos até lá esperá-lo. O terceiro lugar era nosso. Conseguimos construir uma vantagem significativa e mesmo que o Anderson tivesse que caminhar, e ele caminhou um pouco, o lugar no pódio estava assegurado.

Dificuldades, mas a poucos metros do final. Foto: Foco Radical

Na Beiramar aguardei ansioso a chegada. O César ficou vigiando o horizonte até que o Anderson apareceu. Não sabia se eu abraçava, pegava a mão, corria ao lado. Foi uma mistura de tudo. Subimos juntos a rampa e comemoramos. Timidamente, mas comemoramos. Teve a cerveja. Como foi boa. O abraço nos amigos. Finalmente pudemos conversar, eu e ele. 

A chegada na presença de amigos. Foto: Foco Radical
Que abraço bom! Foto: Foco Radical
A dupla Born to Run e equipe de apoio. Foto: Luciano Borguetti

Soube da real condição de dor que ele enfrentou durante todo o dia. Ele enganou bem. Disse o que eu precisava ouvir. Fiz a minha parte. Corri com o coração na boca enquanto pude. E se tivesse que correr mais correria. Foi um belo dia para correr. Um dia tão recheado de momentos especiais. E não acabou. A partir dali permaneci na Beiramar até as nove da noite, assistindo outros amigos cruzarem a linha de chegada. Com gritos incentivei cada conhecido e os desconhecidos também. Não queria que aquilo tivesse fim. Queria celebrar noite adentro. Mas no dia seguinte tínhamos um compromisso com o pódio. E nesse pódio pudemos estar junto de gigantes da corrida, prêmio maior do que qualquer troféu.

A premiação maior eu tive durante a corrida, que foi compartilhar de momentos tão bons com um amigo, correndo com propósito em busca de um objetivo. Foto: Foco Radical

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