Fodaxman Epic Tri 226 – Um sonho de olhos abertos

O meu envolvimento com o infame Fodaxman iniciou quando um dos seus idealizadores, o Rafael Pina, fez uma menção à idéia em um grupo de WhatsApp do qual participo, de amantes de corrida em trilha. Eventualmente surgiu um convite e mesmo estando sem correr por causa de uma queda de bicicleta em Outubro, confirmei o meu interesse em participar. A data inicialmente proposta era em Dezembro, depois adiada para Janeiro. Essa mudança foi fundamental, pois permitiu que eu fizesse uma preparação minimalista, bem a minha cara.

Não corri mais do que 20 km em cada sessão. Isso por dores na banda ílio-tibial. Basicamente para proteger o lado esquerdo que ficou machucado em razão da queda de bicicleta, sobrecarreguei o lado direito e desenvolvi uma série problemas que precisam ser corrigidos com sessões de fisioterapia e fortalecimento. Quanto à natação, sem nunca ter tido aulas e treinamento específico, o negócio é não afundar. Isso eu consigo, com a ajuda de neoprene. Já no pedal, apesar de eu não ser nem de perto uma fonte expressiva de Watts, sou persistente. Talvez essa seja a minha maior virtude para essas provas de resistência. A dificuldade não me assusta. Não penso na hora em que vou chegar, em como vai ser a celebração, em quanto tempo vou terminar. Penso no metro que está à minha frente. Na braçada, pedalada ou passada que realizo. Na paisagem à minha volta. Se alguém pudesse fazer uma visualização dos meus pensamentos encontraria um tema recorrente: “que subida foda”, “que calor foda”, “que visual incrível”, “olha que maravilha”, “uhuuuu”, e assim vai.

Antes da prova um fantasma me rondava. O que comer durante o evento? Já sofri com isso bastante em provas de triathlon na distância Iron e também em eventos de ciclismo de longa distância. Passei por uma fase dos drinks ultra-específicos com proporção mágica de carboidratos e proteína que prometem desempenho hercúleo, pelo desencantamento do gel, pela fase do choco leite e queijo quente, e agora vivo a era das castanhas. Levei quatro pacotes de 250 g de um mix de castanhas, tâmaras e cranberries. Não terminei um pacote durante a prova inteira. Também fiz um pote de macarrão de arroz com legumes. Inicialmente o plano era comer e repartir o saboroso macarrão com os amigos na véspera da prova. Todos tem suas preferencias pessoais nessa hora e no fim sobrou muito macarrão que levei comigo no carro de apoio. Durante a prova fiz uso desse pote de macarrão em duas ocasiões, uma ao terminar a subida da Serra do Rio do Rastro, e outra próxima ao quilômetro 150 do pedal. Foram duas ocasiões que proporcionaram extrema felicidade. Não troco essa alegria por nenhum tempo no cronômetro. E acredito que a segunda parada foi fundamental para que eu fizesse uma maratona sem comer, só ingerindo líquido. Outro elemento essencial do meu kit alimentação são cápsulas de eletrólitos. Consumo duas a cada hora de exercício. Senti uma leve caimbra no adutor direito no final da subida da Serra do Rio do Rastro e foi só. Quanto à hidratação, primordialmente água, suplementado por água de coco extraída do coco na véspera e armazenada em garrafinhas de 500 ml e bebida isotônica do tipo Gatorade. Bebia quando dava vontade, comia quando dava vontade. Meu apoio reclamou que eu dava sono porque não pedia nada. Felizmente ele fotografa e a prova foi um prato cheio.

Caso fosse descrever cada parte do evento, do esforço, levaria mais tempo para relatar tudo que aconteceu do que o que levei para completar o Fodaxman. Sem dúvida é o evento mais difícil de triathlon do qual participei. Minha primeira prova de triathlon foi o Ironman Florianópolis em 2013. Repeti a dose em 2014 e 2015, sempre melhorando o desempenho e diminuindo o tempo de preparação. O custo exorbitante e o desejo por novas paisagens e outros desafios fez com que eu desistisse de fazer o Ironman. E veio o Fodax. É a coisa mais difícil que eu já fiz? Acredito que não. As 9h correndo no ar rarefeito dos Andes, em altitude que variava entre 3000 m e 4200 m numa solidão completa, ao longo da trilha Inca até Machu Picchu, foi mais difícil. As 29h que pedalei nas montanhas da Pennsylvania para percorrer 600 km foi mais difícil. Assim como as 82h e 45 min que levei para pedalar 1200 km na região do Blue Ridge Mountain nos EUA. Dez dias após esse evento pedalei 1000 km novamente nas montanhas da Pennsylvania, em 62h. Em termos de dificuldade esses eventos superam o Fodaxman do meu ponto de vista. Não me entenda mal, o Fodaxman é foda. Conversando com os amigos após a prova, achei curioso que poucos ou nenhum outro tinha pedalado mais de 8h. Isso para mim era rotineiro. Eu costumava elaborar percursos de ciclismo procurando todos os picos que conseguiria encaixar em distâncias de 160, 200, 300 e até 400 km, Saia com um papel de instruções de percurso curva a curva, sem GPS e voltava 10h, 14h ou até 22h depois. Dessa experiência vinha a convicção de que eu conseguiria. Não seria o mais rápido, mas já havia adestrado monstros mais temerosos.

Largamos um pouco antes das 6h da manhã numa lagoa no Balneário Rincão. Dez pessoas munidas de muita disposição e amor pelo esporte. A torcida era composta de familiares e amigos que fariam o nosso apoio ao longo do evento. Momentos antes da largada uma GoPro caiu do caiaque do Manente e iniciou-se a caça ao tesouro. Essa “disputa” eu ganhei! Uma contagem regressiva de 5 s iniciou o evento e lá fomos nos. Duas travessias de ida e volta à margem oposta da lagoa. Nadar ao amanhecer foi espetacular. Uma parte de mim relutava em sair da água, por mais devagar que eu nado, estava gostando daquilo. Uma sensação inédita. Talvez fosse pela ausência de braços e pernas que parecem querer te afundar que encontro nas provas mais povoadas.

O pedal, que pedal maravilhoso. Que sensação fantástica subir a Serra do Rio do Rastro. Lembro muito bem do momento em que avistei o paredão da serra de forma mais nítida. Estava feliz por estar realizando um sonho, pois nunca havia subido ela de bicicleta. Sofri bastante, mas com gosto. A cada curva olhava para baixo e admirava a altura conquistada. A cada curva olhava para cima e imaginava como seria possível chegar ao topo. E quando cheguei ao topo encontrei uma chuva fina e um vento fresco que me animaram para o resto do pedal. Apesar da dificuldade, eu amei cada metro. Subidas longas e contemplativas, descidas embaladas pela adrenalina. Foi demais.

Após 8h40min era hora de correr. O Sol parece ter se escondido da gente, e foi até Urubici nos esperar e nos castigar. A maratona, aquilo que eu faço melhor, foi muito sofrida. A corrida é bem difícil, com aquelas subidas e descidas curtas que dificultam desenvolver um ritmo. Sofri. Foi a segunda maratona mais lenta que eu já fiz, A primeira ainda continua a de Machu Picchu. Na maratona alcancei o Tarso e o Sandro. Juntos corremos bastante tempo. Só após chegar ao topo da Serra do Corvo Branco é que desgarrei e terminei tentando fazer um pouco de força. Ao chegar, 15h07min após a largada, com uma lanterna na cabeça, encontrei os amigos Ana Lídia, Luciano e Luana na entrada da pousada. Perguntei se era ali a chegada. Terminou? Sim, terminou. Aeeeee! Ouvi o barulho do rio e fui realizar um desejo que carregava comigo desde que eu vi as primeiras fontes de água brotando na Serra do Rio do Rastro. Banhei-me na água gélida e revigorante da serra. Que sensação maravilhosa. Que dia incrível. Pouco tempo depois chegou o Tarso seguido pelo Sandro. Os esperei lá no portão. Nos abraçamos.

Nada seria possível sem o empenho de algumas pessoas centrais, idealizadores do evento, como o Pina, Manente, Fabrício e Palhares. Contamos com o apoio fundamental de muitas pessoas, o Max e Zilli em Urubici,  o Jorginho da 3T que nos presenteou com as camisas de ciclismo, a Ana que fez uma cobertura especial da Flows. E claro, toda a galera que nos apoiou durante a prova, além do Duks que fotografou todos na medida do possível ao mesmo tempo em que fazia meu apoio.

Desse dia acumulo muitas memórias, novas amizades, e a certeza de que estou no caminho certo. Viva!

Subida da Serra do Rio do Rastro. Foto: Eduardo Moreira

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