Volta à Ilha de São Francisco do Sul – no limiar


Há poucas coisas na vida que me dão tanto prazer quanto um esforço físico no limiar aeróbico. É aquela região limítrofe entre o que é possível sustentar por um tempo razoável e a zona de depleção de oxigênio, onde o colapso é eminente. A prova de Revezamento Volta à Ilha de São Francisco do Sul oferece a oportunidade de viver esse limiar múltiplas vezes em um dia. É uma prova múltiplo-orgásmica, poderia se dizer.

Esse ano recebi um convite do fisioterapeuta Gustavo Sperry para compor um trio masculino na prova. Sem hesitar muito aceitei o convite e sugeri o nome do meu amigo Renee Gonçalves para fecharmos o trio. Renee vem treinando para a Maratona de Berlin no fim de Setembro e a prova ofereceria um boa oportunidade de testar o preparo. Acertamos a nossa inscrição algumas semanas antes do evento e fomos cuidar de nossas vidas.

A poucos dias da prova mal tínhamos conversado sobre estratégias, alimentação, transporte, nada. Na véspera nem tínhamos alguém que poderia nos ajudar durante o dia, fazendo o transporte de carro. Quanto amadorismo! O Roger, amigo do Renee, fez uma viagem de madrugada de Floripa até São Francisco do Sul para nos auxiliar. Sua participação no evento acabou sendo tão importante quanto a nossa.

A prova de 90 km é dividida em 15 trechos. Eu, o Renee e o Gustavo, nessa ordem, revezamos até terminá-los. São cinco para cada um. Esse era o plano.

O dia amanheceu nublado e relativamente frio, mas ainda sem chuva. A largada é no centro histórico da cidade, uma das mais antigas do Brasil. Acredito que o potencial turístico dessa cidade ainda é pouco explorado.

Às 7:40 em ponto foi dada a largada para os trios masculinos e mistos. Logo tomei a dianteira e imprimi um ritmo forte, talvez forte demais para mim. O primeiro dos 9 km desse trecho foi percorrido em 3min06s. Segui sem sentir a presença de outro corredor até o terceiro quilômetro. É engraçado como um corredor consegue farejar outro. Na largada apenas um chamou a minha atenção. Foi justamente o que estava ao meu lado agora. E seguimos juntos por um quilômetro, até que eu não estava mais confortável e deixei o ritmo cair um pouco. Ele seguiu e foi abrindo alguma distância, mas não saiu da minha vista. Em torno do quilômetro sete passei a sentir muita dor abdominal, justo no momento em que eu senti uma pequena aproximação ao corredor que me passou. A dor intensificou e o esforço foi grande para tentar ignorar o desconforto. Terminei o trecho e, ao passar a pulseira para o Renee, logo procurei onde me recuperar. Estava difícil até respirar. E assim segui preocupado até o carro, pois lidar com essa sensação o dia inteiro não era um prospecto muito animador.

Durante o trecho do Renee perdemos mais duas posições, agora ocupávamos a quarta colocação. Renee vinha de quase três semanas de inatividade, duas delas doente e sob antibióticos. Estava tendo dificuldade em correr em um ritmo que geralmente era rotineiro para ele. Mesmo assim ele bravamente mostrava todo o empenho.

Somente após o Gustavo receber a pulseira e concluir o seu trecho é que pudemos ter uma idéia da nossa real condição competitiva na prova. E o prospecto era animador. O Gustavo conseguiu diminuir a distância para uma das duplas que nos tinha ultrapassado durante o trecho do Renee. A primeira dupla estava muito à frente, e a segunda e terceira bem próximas, nós, logo atrás.

O quarto trecho foi o meu segundo. É curto, com início em rua de paralelepípedo e o restante em areia compacta na praia do Capri. Escolhi correr de huaraches. Ainda no paralelepípedo, alcancei o corredor do trio que ocupava a terceira colocação. Passei por ele determinado a não deixar dúvidas de que eu vim a negócios. O meu objetivo já não era ele, e sim o corredor na segunda posição, que no momento nem conseguia ver. As dores abdominais não se pronunciaram e assim pude deixar a corrida fluir. Avistei o corredor em segundo e passei a diminuir a distância aos poucos, mas não a tempo de alcançá-lo antes do trecho terminar. A distância para ele diminuiu bastante, para menos de um minuto.

O Renee e o Gustavo correram e não só mantivemos a nossa terceira posição, como abrimos algum tempo para o quarto colocado. Em contrapartida, o trio à nossa frente ficou praticamente inalcançável. Na verdade estavam se aproximando da equipe em primeiro lugar. Enquanto me dirigia ao local de largada para o meu segundo trecho havia notado um corredor dessa equipe, um rapaz alto e esguio. A minha intuição não falhou e depois reconheci que era o Luís Ohde, triatleta profissional com um tempo de 8h27min no Ironman Florianópolis. Pena que não corremos os mesmos trechos, teria sido um prazer medir esforços lado a lado.

O meu terceiro trecho e sétimo da equipe era de apenas 2,5 km, mas com uma grande escadaria seguida de subida por trilha em mata fechada, terminando no plano após descer e sair da trilha. Apesar de curto, considero bem difícil porque a trilha tem muitas raízes expostas e diversas vezes tive que passar por baixo de troncos caídos e me desviar de galhos e plantas que penetravam pela trilha estreita. Meu antebraço esquerdo foi de encontro a um galho que havia sido cortado e levou a pior. O incômodo maior viria depois, agora era hora de correr.

O Renee iniciou o percurso de quase 21 km de praia, divididos em três trechos. A terceira colocação estava consolidada por enquanto. Não sabíamos exatamente quantos minutos tínhamos de vantagem, mas era o suficiente para sairmos dos postos de troca antes da equipe seguinte nos alcançar.

Quando recebi a pulseira novamente do Gustavo, agora para correr o meu quarto trecho do dia e o décimo da equipe, estava descalço. Nesse trecho no ano anterior eu tinha sido o mais rápido entre todos os corredores da prova, de todas as categorias. Então a lembrança era boa. Logo notei um número muito maior de corredores descalços, ao contrário do que havia visto no ano anterior. Fiz uma corrida com propósito, para buscar uma aproximação ao segundo colocado e nos distanciar o máximo possível do quarto. Em alguns pontos tive que correr praticamente na água para evitar a areia mais fofa. Na verdade é uma arte escolher a linha que maximiza a velocidade. Se correr muito próximo à areia fofa o bicho pega, se correr muito dentro da água o bicho come. Tem que ficar ali, entre ser pego e virar comida. Acho que fui bem.

O Renee iniciou o décimo primeiro trecho da nossa equipe e pudemos perceber do carro que ele encontrava-se em dificuldades. Não estava bem, mas mesmo assim se esforçava muito para não perder tempo. Foi valente. Tivemos que redefinir a nossa estratégia. Claramente esse seria o último trecho do Renee. Decidimos que o Gustavo iria antecipar um trecho e eu iria correr o último, fechando o revezamento.

No momento em que o Gustavo iniciou o décimo segundo trecho, a diferença para a equipe na quarta colocação era de aproximadamente três minutos. Éramos ameaçados. Ao passarmos pelo Gustavo de carro ele não parecia animado, pelo contrário. Disse que estava “quebrado”. Isso significava que eu possivelmente teria que correr os três trechos restantes sem descanso. Sabia que era possível, mas não quão rápido conseguiria ser. Deixamos para decidir isso na última hora.

Quando iniciei o décimo terceiro trecho da equipe, meu quinto do dia, logo voltei a sentir dores abdominais, no diafragma, e correr era cada vez mais desgastante. O carro passou por mim e disse apenas: “Avisa ao Gustavo que ele vai ter que correr. Tá doendo.” Soube depois que ele não gostou muito da notícia. Esse trecho era de chão batido, mas pela chuva que agora caía, encontrava-se bastante escorregadio. Tive que tomar muito cuidado para não cometer um deslize e ir ao chão. Em fevereiro tive uma experiência desagradável no último quilômetro de uma ultramaratona ao tomar um tombo em situação bastante semelhante. Desta vez saí ileso.

O Gustavo correu o seu último trecho no sacrifício, a pedido meu. Talvez não precisasse, pois já tínhamos conseguido reestabelecer uma certa vantagem para a equipe que estava na quarta colocação. Mas na hora é difícil saber. A decisão foi acertada. O Gustavo além de conseguir correr bem, permitiu com que eu descansasse um pouco.

O meu sexto trecho do dia e o décimo quinto da equipe foi o que me levou de volta à largada. Como bom filho, retornei com toda a pressa com que saí, impulsionado pela ânsia de concluir a prova e celebrar o nosso esforço.   Sem ser ameaçado por outra equipe e sob chuva, reencontrei o Renee e o Gustavo a poucos metros do pórtico de chegada, para juntos atravessarmos a linha. A celebração foi com pipoca e cerveja. Depois um banho quente bem merecido e a certeza de que fizemos o que estava ao nosso alcance.

O Roger foi essencial para que pudéssemos descansar sem nos preocupar em dirigir o carro. Ele não só nos conduziu, mas nos manteve motivados, registrou todas as nossas parciais, tirou fotos, anotou as diferenças para as outras equipes. Enfim, o Roger foi o máximo.

Caso for convidado para participar da Volta à Ilha de São Francisco do Sul, diga SIM!

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Primeiro trecho da prova, ainda na liderança. Foto: Foco Radical
Travessia de rio durante no quarto trecho da prova. Foto: Foco Radical
Travessia de rio durante o quarto trecho da prova. Foto: Foco Radical
Recebendo a pulseira do Gustavo para iniciar o décimo trecho da equipe. Foto: Foco Radical
Recebendo a pulseira do Gustavo para iniciar o décimo trecho da equipe. Foto: Foco Radical
Já na no centro histórico de São Francisco do Sul, a poucos metros da chegada. Foto: Foco Radical
Já na no centro histórico de São Francisco do Sul, a poucos metros da chegada. Foto: Foco Radical
Chegada da nossa equipe, após 6h00min32s de corrida.
Chegada da nossa equipe, após 6h00min32s de corrida. Foto: Foco Radical

2 pensamentos em “Volta à Ilha de São Francisco do Sul – no limiar”

  1. Bom dia Juan. Que bom que deu tudo certo no final.
    Essas experiências no esporte são de grande valia quando trazemos todo o esforço, dedicação e esperança de que vitórias estão por vir, basta ter paciência, tolerância, empenho, foco e amor pelo que se quer alcançar. Sendo assim, “A vitória sempre será sua!”..Nesse caso: A vitória foi de toda a equipe.
    Lindo relato!
    Cuide-se mais, OK?
    bjo da Dalma e do Cerutti

    1. Obrigado! Provas de revezamento são muito especiais. Mesmo que não tivéssemos conseguido alcançar uma posição no pódio, a experiência foi muito gratificante. As dores abdominais às vezes acontecem, geralmente algum descompasso entre respiração e o esforço. No caso os músculos que auxiliam na respiração começaram a sofrer câimbras, por causa do esforço intenso e respiração inadequada. Deve ter sido fruto de sair rápido demais. Mas com o passar do tempo tudo voltou ao normal. Beijos!

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