UltraTrail Travessia dos Costões – uma jornada épica


Enquanto escrevo este relato tem três caras lá fora, correndo trilhas à noite, desde que começamos às 7 da manhã, após 16 horas. De todos que partiram apenas eles conseguiram manter-se fiel ao objetivo maior. Nenhum de nós é menos por não ter logrado os 80 km que planejamos, nem todos tinham esse objetivo. Não é a distância que impressiona e sim o nível de dificuldade que o percurso apresenta.

Quando o Daniel Meyer anunciou esta prova entre amigos avisou que seria uma corrida sem precedentes, talvez a mais difícil do Brasil. Ele não estava brincando. Os primeiros 25 km foram percorridos em 6 horas. Minha experiência com costões era limitada e hoje descobri o quão difíceis podem ser. Em certas ocasiões fiquei realmente com medo, o que não é comum para mim. Mas o Dani sempre mostrou o caminho nas situações mais perigosas e nos passou muita confiança. Após algumas horas o que dificultou ainda mais a progressão foram as constantes câimbras que passei a sentir. Com muito pesar, tive que parar para não prejudicar os demais. Usei as duas horas seguintes para descansar, repor eletrólitos e calorias, com a esperança de que poderia reintegrar o grupo mais à frente. E deu certo.

Descansado, ainda com dor muscular, mas animado, voltei a correr. Agora o percurso era mais adequado ao meu perfil. Tive condições de correr de forma mais solta. Fizemos a subida do Morro dos Zimbros e eu estava bem, ainda correndo com uma boa forma. Ao alcançar as antenas continuamos por um trecho de chão batido com pedras e valas. Estava agora com huaraches nos pés, e bastante feliz por conta disso. Iniciamos uma descida, o mesmo local onde havia corrido no sentido contrário algumas semanas atrás. Aí tive a infelicidade de tropeçar em um arame farpado que estava no chão. Fui imediatamente ao solo e no mesmo instante ficou claro que o arame cortou meu pé. O corte foi o suficiente para penetrar toda a epiderme, mas não houve lesão a nenhum tendão ou músculo. Apenas bastante sangue e a certeza de que não poderia continuar. O Anderson fez um curativo de emergência e desci num trote manco até uma intersecção onde aguardamos um carro que fazia suporte. Menos de uma hora depois meu problema estava resolvido, a sutura de quatro pontos feita e a recuperação iniciada. Pude ainda presenciar a chegada dos três bravos corredores ao último ponto de apoio antes de se embrenharem novamente por trilhas, ao anoitecer. Foi importante porque não queria que se preocupassem com o que havia acontecido comigo. Demonstrei ânimo e até brinquei que iria continuar com eles.

Agora escrevo este relato enquanto ainda não chegaram, com a certeza de que logo darei um abraço a estes corajosos que hoje inspiraram todos nós.

Neste dia que passei em Bombinhas, na casa do Daniel Meyer, que nos acolheu de forma tão carinhosa, descobri o quão forte pode ser a união e o companheirismo entre aqueles que se propõe a realizar algo grandioso, a superar um desafio imponente. O que nos limita somos nós mesmos, a nossa falta de fraternidade. Não falo de limites físicos e sim da humanidade que há dentro de nós. O que temos de mais valioso.

Viva o Daniel Meyer, sua esposa Lili e seus pais. Viva o Anderson e o Marcelo que foram os únicos a acompanharem esse grande corredor. Viva todos nós que tentamos, e os que não quiseram tentar! Viva a amizade! Hoje vou dormir todo lanhado, com tudo doendo, mas feliz.

A título de curiosidade, esta foi a primeira corrida em que senti mais dores nos punhos do que nas pernas. Isso graças aos costões.

O início da jornada e a vista do que nos agurdava.
O início da jornada e a vista do que nos agurdava.
Enfim uma praia após muitos costões.
Enfim uma praia após muitos costões.
Um dos trechos complicados nos costões.
Um dos trechos complicados nos costões.

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