Lagoa dos Ventos Uivantes


O alarme despertou às cinco da manhã, mas eu já estava acordado desde as três com as insistentes rajadas de vento que balançavam as árvores, cujos galhos acariciavam o telhado da casa. Água caía do céu, borrifando a civilização desacordada. Os meus pensamentos oscilavam entre os preparativos para a corrida e as lembranças do dia anterior. Nem lá nem cá, era hora de levantar.

Calmamente executei as tarefas planejadas. Ainda sob efeito de um certo torpor, fiz o café, afixei o numeral, vesti a indumentária, prendi o chip. Estava pronto, pelo menos em teoria. Ainda era cedo, mas antes com calma do que apressado. A largada era às 8:30. Ao conduzir o carro pela estrada de chão que leva até a minha residência, percebi a extensão da ação do vento durante a noite. Muitos galhos encontravam-se sobre o chão, em todos os tamanhos.

Cheguei às 7:30 próximo ao Terminal de Integração da Lagoa, o vulgo TILAG. Fazia frio, ventava muito e chovia em rajadas. Não havia onde abrigar-se a não ser dentro do carro. Ainda agasalhado, fui em busca de um banheiro correndo. Agora sim, tinha pressa. Após uma volta no centrinho da Lagoa sem alcançar o meu objetivo e com sinais de desespero, retornei. Nesse instante instalavam os banheiros químicos. Alívio. O mundo parecia outro quando saí de lá, já havia bastante gente e movimento. Era como se o Gênesis tivesse ocorrido naquele intervalo.

Fiquei perambulando meio sem propósito, cumprimentando alguém ali, outro aqui, até o César Zaniboni da Rarámuri – Cultura do Esporte – gritar o meu nome. Conversei com ele e outros corredores da Rarámuri enquanto aguardávamos, sob frio, chuva e rajadas de vento, a largada. Os organizadores estavam com dificuldade para estabilizar o pórtico. O César chegou a comentar comigo que havia a possibilidade do evento ser cancelado. Isso nem tinha passado pela minha cabeça até aquele momento e eu fiquei um pouco desanimado. Queria correr, ainda mais depois de todo o perrengue na chuva e vento. Logo meu ânimo melhorou quando anunciaram que a largada estava confirmada.

Em seguida os corredores posicionaram-se atrás do pórtico e dessa vez eu decidi ficar no meio do bolo de gente para melhor aproveitar o calor humano. Escolhi uma posição estratégica atrás de um corredor mais alto que serviu como excelente corta-vento. Após longos minutos de espera a contagem regressiva iniciou. Dez, nove, oito…e largaram. Foi engraçado. A contagem não chegou nem a seis quando deram a largada. Enfim, fui com tudo.

Fiz a primeira curva um pouco aberta e acelerei para me posicionar atrás do Diogo Trindade, que já tomava a frente. Estava confortável nessa situação e pretendia ficar ali enquanto aguentasse o ritmo. Percebi atrás a presença de um outro corredor para mim até então desconhecido. Na verdade, eu é que sou o desconhecido. Era o Geilson Santos, também chamado de Grilo. Juntos atravessamos a ponte e depois de um breve trecho na Av. das Rendeiras entramos na Osni Ortiga. Logo no início fomos saudados por ventos muito fortes. O Diogo, que é um corredor leve, ainda à minha frente, parecia balançar a cada rajada de vento. Nesse momento ele diminuiu o ritmo um pouco e meio sem querer eu estava na frente. Honestamente não queria assumir a responsabilidade da liderança tão cedo, mas aconteceu.

O objetivo agora era manter uma cadência e velocidade que eu pudesse sustentar. Notei que o Diogo ficou um pouco para trás e eu era seguido de muito perto pelo Geilson. Ao invés dele permanecer nas minhas costas, para proteger-se mais do vento, posicionou-se ao meu lado. Mas não por muito tempo. Já ao final da Osni Ortiga ele tomou a dianteira e eu não pude contestá-lo. Não queria variar o ritmo. Então passei a fazer a minha corrida enquanto o via distanciar-se aos poucos. Assim iniciamos o retorno pelo Canto da Lagoa. Sabia que naquela altura uma vitória dificilmente seria possível, a não ser que ele entrasse em apuros. O objetivo passou a ser o de manter a minha colocação na medida do possível. Já tinha aberto uma vantagem considerável para o Diogo e isso me deu mais confiança para seguir. O Morro do Badejo estava à frente, o Geilson ainda ao alcance, mas não fiz nenhuma tentativa de aumentar a intensidade. Ainda faltavam quase cinco quilômetros e não seria prudente da minha parte.

Passei a curtir a corrida mais. Não via ninguém à minha frente e nem atrás. Pude correr como geralmente faço, sozinho. As pequenas subidas, descidas e curvas do Canto da Lagoa ofereciam uma distração bem vinda. Os pontos de referência foram passando e a chegada estava próxima. Sentia-me bem, a respiração era intensa, mas sustentável. E veio a marca dos 10 km. Olhei rapidamente atrás para assegurar-me de que não sofria uma investida de última hora. Na subida final ouvi os locutores anunciarem a chegada do primeiro colocado da prova, o Geilson. Um minuto e poucos segundos depois passei o pórtico para consolidar a segunda posição na minha primeira participação. Estava bem feliz com a corrida e o resultado alcançado.

Procurei o Geilson na chegada e recebi dele sinceras palavras de incentivo, o que me deixou ainda mais satisfeito e também fez a minha admiração por esse corredor muito forte aumentar. Ele tem 45 anos e disse que eu, aos 38, ainda poderia melhorar muito, dado que corria há quatro anos. Tomara!

Talvez a parte mais difícil da prova foi esperar a premiação no frio e na chuva que agora era mais intensa. O espaço para abrigar-se ficou escasso e eu tremia, mesmo depois de colocar um casaco, calça e tirar a camisa de corrida molhada. Enfim chegou a hora de subir ao pódio. Recebi como premiação um troféu, que será doado à Corrida do Pereba, alguns itens alimentícios dos patrocinadores da prova e um cartão presente da Centauro no valor de 75 reais. Foi um dia complicado para correr, mas tenho certeza de que quem o fez não se arrependeu. Dias assim é que geram boas histórias e risadas, depois da chegada.

Início do trecho na Osni Ortiga
Início do trecho na Osni Ortiga

2 pensamentos em “Lagoa dos Ventos Uivantes”

  1. Perfeito o teu relato Juan “El Flaco”, eu que sou um velho corredor pereba tive o prazer de compartilhar os mesmos sentimentos durante 1:00.55 tempo que durou a minha “caminhada” em torno da Lagoa dos ventos uivantes. Parabéns pelo blog. Abraço

    1. Obrigado! Pena que não nos falamos. Adorei a corrida apesar do tempo. O melhor foi tomar um café bem quente e me alimentar após a prova, pois corri em jejum. Não sabia que você também gostava de correr, muito bom.

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