Treino para o Indomit 100 km – Descobrindo o Sertão da Miséria


Soube do nome “Sertão da Miséria” quando fiz o upload da atividade para o Strava e olhei o mapa. Não poderia ser mais propício para uma tarde onde as dificuldades foram muitas, mas sempre celebradas com risadas.

No meio da tarde de Sábado fui até Bombinhas encontrar o Tarso, que correu 21 km em dupla no Indomit Via do Farol no mesmo dia. Eu corri 30 km no plano em ritmo de maratona pela manhã. Ambos estávamos um pouco desgastados, mas a idéia era essa mesmo. De lá seguimos até o ponto mais próximo do início da trilha com o qual poderíamos chegar de carro, pois a hora já era avançada e correr em trilha no escuro sem lanterna não é uma boa idéia, mesmo em noite de lua cheia.

Estávamos na companhia do Dudu, o cão-atleta aventureiro do Tarso. A presença dele foi muito importante, como iríamos logo descobrir. Iniciamos a corrida seguindo as orientações do meu relógio, onde armazenei o percurso. Para a minha supresa o trajeto já começa em uma propriedade particular. Fui novamente de huaraches, mas tive que improvisar uma das tiras que sumiu. Um cadarço de tênis serviu bem. Pulamos uma porteira e após um pequeno morro começou o drama. A estrada era um barro endurecido com formas de pneu de trator, não exatamente propício para a corrida. Achar um lugar para encaixar o pé era complicado. Esse trecho deve ser percorrido à noite durante a prova, uma bela armadilha para tornozelos desavisados. Com muito esforço progredimos e ao longo do caminho encontramos várias porteiras. Ora por cima, ora pelo meio, o Dudu sempre por baixo, passamos uma à uma.

O sol delineava o perfil das montanhas no horizonte. Tarso e Dudu corriam à minha frente quando parei para tirar uma foto. É algo que gosto muito de fazer, fotografar em ação, registar esses momentos do ponto de vista de quem também corre. Pouco tempo depois corríamos em um campo aberto quando o Tarso notou que uma manada se dirigia na nossa direção. Transcrevo abaixo o diálogo que se seguiu.

T – Orra, tá vindo uma manada atrás da gente, Juan!
J – Você acha que isso é problema?
T – Cara… Não quero testar.
T- Juan, vamos correr a 4 por km?
J – Ih, eles tão vindo mais rápido! Não estou gostando disso! Acelera, acelelera, aceleraaaaa carambaaaaaa!

Não lembro onde o Dudu estava. Alcançamos a porteira e pulei rapidinho. Da segurança do outro lado tirei uma foto da manada, que neste momento nos observava parada. Jamais tinha passado por algo assim e não imagino o que teria feito se não houvesse porteira à vista. Talvez devesse ter mantido a posição. Não tinha medo de vaca nem boi, até agora.

Meio sem jeito seguimos a linha indicada pelo meu relógio, agora em frente à uma casa, dentro de uma propriedade que não pedimos licença para adentrar. Algumas pessoas nos observavam enquanto um cão, bem maior que o Dudu, foi fazer um reconhecimento do nosso companheiro quadrúpede. Agora éramos quatro. E os quatro seguiram, passando porteiras, ora por cima, ora pelo meio, o Dudu e o cão amigo sempre por baixo.

Diante de nós estava outra manada. Dessa vez um touro bem grande permanecia imóvel, mas o restante dispersava-se com o barulho dos cachorros. Eu encorajava o Tarso a continuar caminhando enquanto escondia-me atrás dele. O touro olhava fixamente na nossa direção, seu semblante calmo. Havia tensão no ar. Pedi ao Dudu para fazer alguma coisa. Quem respondeu foi o nosso cão-amigo que correu em direção à manada e conseguiu dispersar até o touro. Ufa! Vamos logo antes que eles mudem de idéia.

Em seguida atravessamos um riacho e o cão-amigo ficou, despedindo-se com latidos de frustração. Dudu não se importa em molhar as patas e seguiu conosco. O Sertão da Miséria era visível, mas o caminho até ele obtuso. Pouco a pouco nos aproximamos, passando por mais porteiras, alguns bois e vacas que o Dudu logo tratava de afugentar. As valas e riachos que encontramos foram transpostas pelo Dudu com uma facilidade incrível. No meu caso nem tanto.

Subimos pela encosta do Sertão da Miséria e após várias tentativas frustradas de achar uma trilha decidimos desistir. O sol já se punha e até a volta para o carro poderia ser complicada. Felizmente o celular do Tarso estava com recepção e conseguimos achar uma estradinha que nos levaria de volta ao carro. Quando retornamos ao ponto de partida já era noite e a temperatura havia caído bastante. O dia foi longo e divertido. Cansado, mas feliz.

Tarso e Dudu correndo
Tarso e Dudu correndo.
A manada que nos perseguiu posando para a foto.
A manada que nos perseguiu posando para a foto.

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