Saindo do Ninho – Treino para o Indomit 100 km


É sempre recomendável conhecer o percurso de uma prova na medida do possível. É algo que raramente fiz, simplesmente porque sou pouco metódico, pelo menos na hora de me preparar para um evento. Faço geralmente o que dá vontade, como correr descalço 12 km em trilhas um dia antes de uma prova de duathlon. Mas isso é porque não corro pelo resultado e sim pelo prazer. Para a prova do Indomit 100 km pretendo fazer um pouco diferente, pois o desafio é algo com o qual ainda não me deparei. Quero estar bem preparado, saber o que me aguarda. Para uma prova assim, não há simulado que incorpore todos os elementos que terão que ser enfrentados no dia do evento. Apesar disso, é possível fazer treinos que simulem aspectos isolados da prova e com isso estar pronto para lidar com diferentes elementos de uma ultramaratona desse nível de dificuldade.

Seguindo a recomendação do meu treinador Ivan Razeira, entrei em contato durante essa semana com um triatleta da região, o Tarso, sócio-proprietário do Bootcamp. Ivan havia dito que o Tarso também gostava de correr descalço, curtia trilhas e que achava que a gente ia se dar bem. Acertou na mosca. Mesmo nas trocas de mensagem via WhatsApp, já deu pra perceber que encaramos o esporte de forma parecida e que temos muito em comum. O Tarso mesmo fez o trabalho de pesquisar o percurso e propor o treino, já que eu não tive a vergonha na cara de fazê-lo. Não definimos a quilometragem, apenas algo “entre 20 km e 50 km”. Assim, bem preciso.

Encontrei o Tarso às 7:30 da manhã na passarela imediatamente antes do pedágio na BR-101, sentido norte, próximo ao km 158. Lá estava ele com uma mochila e um skate. Olha que cara maluco, pensei. O que ele vai fazer com esse skate? Dali seguimos de carro até o local de início do nosso treino. Havia um grupo grande de pessoas de Balneário Camboriú que foram explorar algumas trilhas também, todos uniformizados. Poucos segundos após estacionar o carro eles partiram, enquanto eu me preparava para iniciar a corrida. Decidi correr novamente de huaraches, calçado preferido agora para trilhas. As descidas ficam mais lentas, mas não me importo.

Poderia descrever em detalhe todo o percurso que fizemos, mas ao invés disso prefiro mencionar a afinidade e parceria que se estabeleceu nas cinco horas seguintes durante as quais corremos, morro acima, morro abaixo. Conversamos sobre estratégias de alimentação em provas longas, relacionamentos afetivos, ambições profissionais e pessoais, felicidade, o histórico de nossas vidas, esporte, doping, e muito mais. Foi uma conversa tão agradável e franca que se estabeleceu entre duas pessoas que acabaram de se conhecer. Alguém poderia pensar que a corrida dificultou a conversa, mas foi justamente ao contrário. A corrida nos despiu metaforicamente de qualquer veste que procurasse ocultar a nossa real natureza, nossa essência.

Ao fim da jornada percorremos quase 36 km, com mais de 1000 metros de altitude acumulada, passando por trilhas, praias, costões e estradas. O mais importante é que fiz um novo amigo. Melhor dito, dois amigos, já que finda a corrida, fomos até Balneário Camboriú onde conheci o Dudu, o pequeno cão aventureiro do Tarso, que já chegou a correr 39 km. Dudu não pôde nos acompanhar pois estava com uma bolha numa das patinhas, porque no dia anterior correu 21 km no asfalto. Fica para a próxima Dudu!

Tarso surge no meio da mata.
Tarso surge no meio da mata.

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