Estrelas Cadentes


Desde criança fui um aficionado do esporte. Acompanhava tudo que podia: basquete, futebol. voleibol, atletismo, natação, tênis, etc. Difícil não haver um esporte pelo qual não me interessava. Procurava aprender sobre a história, sabia sobre os principais atletas, recordes e as regras de cada modalidade. Era uma espécie de Wikipédia ambulante, antes do Wikipédia existir.

Apesar desse grande interesse, não pratiquei nenhum esporte sob orientação de um treinador até os 34 anos de idade, quando iniciei de forma competitiva na corrida e triathlon de longa distância. Inicialmente nem era a minha intenção participar de competições. Com o incentivo do meu treinador e colegas topei, primeiro nas provas de revezamento. E adorei. A comunhão em torno do objetivo comum é muito gratificante. Nesse tipo de prova é que consigo me doar ao máximo. Ser o elo de uma corrente me transforma de uma pessoa tímida em uma espécie de animal voraz.

O meu envolvimento em provas de amadores fez-me interessar cada vez menos pelo esporte profissional. E o que contribui para isso, entre outras coisas, está a ocorrência de doping. É muito triste quando você vê seus ídolos um a um serem envolvidos em escândalos de doping. Talvez a minha maior decepção tenha sido o Lance Armstrong. Por uma dessas coincidências da vida eu estava na Champs-Élysées em Paris quando ele venceu seu primeiro Tour de France, em 1999. Havia ido lá para visitar o Museu do Louvre, para não dizer fazer compras, e nem estava sabendo do Tour. Ao ver a multidão alinhada na principal avenida de Paris, não resisti e acompanhei os ciclistas. Era a volta da vitória. O Tour já tinha acabado e o interlocutor anunciava cada equipe e seus ciclistas que desfilavam triunfalmente na avenida. Fiquei esperando o maillot jaune, ou camisa amarela, usada pelo líder da prova. E lá veio ele, com a bandeira dos Estados Unidos empunhada. Junto ao Lance estavam seus escudeiros do US Postal Service Team, entre eles o George Hincapie, além do diretor da equipe, Johan Brunyeel. Fiz uma foto icônica, guardada até hoje. Fiquei emocionado com a vitória dele, vindo de uma recuperação de um cancer que quase o matou. O que havia para não ser admirado?

Lance Armstrong ganhou mais seis vezes, todos com doping. Perdeu todos os títulos e eu perdi uma referência. Ele foi apenas uma delas. Em todos os esportes, mesmo no atletismo de longa distância, acontece a mesma coisa. Os escândalos recentes com atletas quenianos é exemplo. Fiquei cansado de torcer, de depositar emoção nessas figuras que para mim representavam a excelência, o que eu gostaria de ter alcançado quando menino. As olimpíadas estão aí, provavelmente irei assistir alguma coisa, talvez não. Dificilmente irei me esforçar nesse sentido. Encontro muito mais prazer praticando o esporte com amigos ou sozinho, alheio aos mais recentes escândalos de doping.

Não bastasse o doping no esporte profissional ele também está presente no esporte amador. É difícil entender porque um atleta amador usa de meios ilícitos, comprometendo a sua saúde, para aumentar seu desempenho, mesmo em provas onde não há premiação em dinheiro. Nas provas de triathlon também estão achando cada vez mais amador dopado, e agora até nas corridas de montanha. Provavelmente irá aumentar a ocorrência de casos assim. O que fazer? Testar todo mundo é inviável, mal fazem isso com os profissionais, quem dirá amadores. Possivelmente a solução seja deixar que esses amadores vivam sua fama ilusória e contentar-se com a sua prova, com os seus objetivos. Outra opção é participar de um número cada vez menor de competições, ou inventar suas próprias provas com os amigos. Essa talvez seja a melhor solução. Abster-se um pouco desse mundo, resgatar o motivo verdadeiro pelo qual cada um pratica o esporte. No meu caso esse motivo é a alegria que ele proporciona e a vontade de superar desafios. Não preciso de platéia, medalhas ou troféus. Foi assim que comecei na corrida. Meu primeiro ultra foi de 67 km no inverno americano, sozinho, eu e uma garrafa de água que virou um bloco de gelo. Até hoje carrego comigo as recordações daquele dia, as dificuldades, a sensação de conquista ao abrir a porta da minha casa depois de alcançar o objetivo. Ninguém estava esperando. Passei dois dias sem sair de casa e mal conseguia andar. Aprendi a lição e só depois de 8 anos voltei a correr essa distância.

Estrelas cadentes são bonitas, mas fugazes.

Lance Armstrong e o US Postal Service Team
Lance Armstrong e o US Postal Service Team – Tour de France 1999

2 pensamentos em “Estrelas Cadentes”

  1. Ótimo texto Juan.
    Eu não corro, não sei andar de bike, nadar …somente no estilo “cachorrinho”, porém, admiro quem faz quaisquer dessas modalidades, ou todas elas, pelo prazer e a alegria de praticar esporte.
    abs

    1. Você sabia que a pessoa mais velha a completar uma maratona, aos 100 anos de idade, começou a correr com 89 anos para ajudar a tratar a depressão? O nome dele é Fauja Singh. Então nunca é tarde! Quem sabe você também não encontra essa mesma alegria do qual falo? Beijo

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