Uma tarde com o Luqui: trilhas, conversas e um espresso, por favor.


Quando o meu amigo do triathlon Lucas Helal, o Luqui, pediu para levá-lo para correr em trilhas, inicialmente minha reação foi de surpresa, depois satisfação por ele ter me escolhido. O Lucas é um atleta muito forte que conheci no ano passado em um longo de bike. Depois desse dia conversamos ocasionalmente e mantivemos algum contato, mas há tempo não nos falávamos. Ele queria uma experiência nova. E se tem uma coisa que eu adoro fazer é propor uma corrida, um pedal, ou qualquer outra “aventura”. Gosto de planejar, pensar nos detalhes, o que, como e quando. Para mim é como se estivesse compondo uma obra, onde tanto prelúdio quanto o epílogo são componentes essenciais.

A proposta foi de correr da Armação até a Lagoinha do Leste passando pela praia do Matadeiro, depois seguindo até o Pântano do Sul e fazendo o retorno pela estrada. Eu já havia realizado esse trajeto anteriormente e sabia que era diversão garantida. Fiquei um pouco surpreso ao saber que o Lucas não conhecia a trilha e mais ainda em saber que ele poucas vezes correu em trilha. Queria que a experiência fosse positiva para ele, desafiadora mas não extenuante. E o mais importante para mim era que ele não se machucasse! O percurso definitivamente não era para iniciantes. No entanto, o Lucas é um atleta competitivo com um excelente condicionamento e eu tinha convicção plena de que ele seria capaz de completar a rota sem problemas.

O início da trajeto, da praia da Armação até o Matadeiro, é cimentada. Ou seja, nem dá pra considerar uma trilha. A trilha de verdade começa no fim da praia do Matadeiro e eu a avalio como bastante técnica. O ganho de elevação não é grande, mas há muitas raízes e pedras protuberantes, aliadas a subidas curtas, mas íngrimes. Ou seja, correr propriamente dito é quase impossível. Eu imprimi um ritmo confortável para mim, mantendo um olho no Lucas para ver se estava tudo bem. Para quem corre apenas no asfalto, correr uma trilha, ainda mais técnica como essa, é um dilúvio de informação sensorial. É preciso estar atento a todas os detalhes do terreno. A capacidade de antecipar é uma componente essencial para uma corrida fluida. É importante manter um olho no passo seguinte e outro no que irá acontecer dentro de dez passos. Essa prática você adquire com o tempo e sua maestria o torna mais habilidoso ao lidar com os obstáculos. Usam-se as mãos, o senso de equilíbrio é mais acionado, assim como a própria corrida é modificada. A passada é mais curta e elevada. A trilha proporciona um prazer muito distinto da corrida no plano. É um momento de comunhão com a natureza sem igual.

Ao longo do caminho eu prometia para o Lucas que a trilha ficaria menos técnica e que em breve iríamos poder correr um pouco mais soltos. Um Lucas incrédulo seguia meus passos. Passamos por um tamanduá morto, com as patas dianteiras estendidas como se estivesse tentando alcançar algo. Não quis examinar o animal mais de perto e achei estranho aquele tamanduá morto assim no meio da trilha.

Como prometido alcançamos o primeiro clarão na vegetação, que permite uma vista do costão, com a praia da Armação ao fundo, assim como o Morro das Pedras e um pouco do espelho d’água da Lagoa do Peri. É uma bela paisagem. Tiramos algumas fotos e continuamos a nossa jornada até a Lagoinha do Leste, atingindo finalmente as partes mais elevadas desse trecho, de vegetação rasteira e uma queda vertiginosa para o mar aos mais desavisados. O vento gélido soprava forte e os pássaros planavam sobre as nossas cabeças, asas quase imóveis. O vôo é mesmo sublime. E assim, no meio de rajadas de vento, o Lucas viu pela primeira vez aquilo que eu gosto de chamar de a “Pérola de Florianópolis”, a Lagoinha do Leste. Essa praia curta encrustada entre dois costões, acessível apenas a pé ou de barco. Praia ainda virgem, mas que infelizmente vem sofrendo com a presença dos seres humanos. Nessa época do ano são poucas as pessoas que a frequentam, mas no verão há muitos que visitam e até acampam na praia e esquecem de levar consigo o lixo e sujeira que produzem. Penso que o acesso a essa praia, assim como a outras áreas de preservação, deveria ser controlada e monitorada. Talvez isso tirasse um pouco da liberdade de ir e vir de pessoas que respeitam a natureza, mas considero um preço baixo a pagar pela preservação desta jóia de Florianópolis.

Descemos até a praia e ao longo dela corremos. O mar, quando visto de longe não assusta, mas ao nível dele a sensação de impotência é grande. Felizes éramos por transitar em terra firme, ou melhor, mole. A areia nessa praia é bem fofa. Em poucos minutos iniciamos a subida do lado oposto da praia, uma trilha que nos leva à Praia do Pântano do Sul, tradicional reduto de pescadores do Sul da Ilha, uma das minhas praias favoritas, pouco badalada e cheia de personalidade.

Essa trilha é menos técnica, mas o ganho de elevação é significativo e exige bastante do sistema cardiovascular. É o acesso mais usado para a Lagoinha do Leste, em função da distância ser bem menor do que o acesso pela praia do Matadeiro. Ao longo da trilha encontramos muitos surfistas com suas pranchas e alguns turistas, brasileiros e estrangeiros. Recentemente há um esforço no sentido de tornar a trilha mais acessível e notei muitos degraus artificiais e outras modificações introduzidas na trilha desde a última vez que havia corrido nela em Janeiro. O Lucas vinha firme e forte atrás de mim, agora com um pequeno galo na cabeça por ter batido em um galho de árvore. A necessidade de perceber aquilo à sua volta, inclusive sobre a sua cabeça é uma lição rapidamente assimilada, senão imposta. Sem maiores contratempos alcançamos o Pântano do Sul e iniciamos o nosso retorno pela estrada até a Armação.

São oito quilômetros de trilha e praias na ida e quatro de asfalto no retorno, com aproximadamente 500 m de elevação acumulada. Concluímos o trajeto em 1h45min aproximadamente, descontando alguns minutos em que paramos para tirar fotos. Desta vez não fizemos a subida até a Pedra da Coroa, lugar muito visado para fazer registros fotográficos da Lagoinha do Leste e arredores. Fica pra próxima, que espero ser logo.

Uma breve menção às huaraches e o benefício de usá-las deve ser feito. Expliquei ao Lucas que quando corro com huaraches fico muito mais cuidadoso com a corrida, presto mais atenção na forma e principalmente onde e como o meu pé aterrisa no solo. O efeito colateral dessa atenção redobrada é uma corrida mais leve, mais fluida, que preserva o meu corpo. Correr me dá enorme prazer, o meu maior objetivo é a longevidade. E por isso preciso cuidar do corpo. As huaraches são muito bons nesse sentido. E vou revelar que fiquei com vontade de correr um pouco descalço nessa trilha. Quem sabe da próxima.

O epílogo foi um delicioso café saboreado no Black Horse Coffee no Mercado Sehat do Campeche, acompanhada de uma conversa agradável que transitou entre temas como cálculo diferencial, academia, o último Teorema de Fermat, modelos bi-exponenciais de consumo de oxigênio, satélites, órbitas geoestacionárias e reentrada atmosférica. Nem só de corrida vivemos. Feliz sou por ter amigos assim, que nos instigam e mostram interesse pelo nosso trabalho.

Selfie com vista do mar e do Morro das Pedras ao fundo.
Selfie com vista do mar e do Morro das Pedras ao fundo.
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Lucas com o costão ao fundo.
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Lucas com vista da Lagoinha do Leste. O frio parece não afetar esse nordestino.
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Lucas correndo na trilha de descida até a Lagoinha do Leste, sem camisa no meio da ventania.

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