Abebe Bikila – o primeiro de uma era


As gerações mais novas talvez desconheçam esse gigante da corrida, mas qualquer corredor que já ostenta cabelos grisalhos não é estranho aos feitos de Abebe Bikila. Há um ressurgimento no interesse por Bikila, não apenas pelas suas vitórias, mas porque correu a Maratona das Olimpíadas de Roma de 1960 descalço, e venceu. Bikila foi um dos primeiros de uma linhagem e tradição de maratonistas vitoriosos da África. Etíope, esguio, elegante, corria com passadas rápidas, de forma serena, sem aparentar esforço algum. Fato curioso é que ele nasceu no dia em que a maratona olímpica de Los Angeles foi disputada, em 7 de Agosto de 1932. Além da Maratona nas Olimpíadas de 1960, também venceu a Maratona das Olimpíadas de Tokyo de 1964, desta vez calçando tênis. Esse feito de vitórias consecutivas em olimpíadas foi igualada apenas por Waldemar Sierpinski da ex-Alemanha Oriental, nas maratonas olímpicas de 1976 e 1980, sob forte suspeita de um programa governamental de doping.

Em 1960 Bikila não planejava correr descalço, nem mesmo a maratona. Foi colocado como substituto no último momento no lugar de outro corredor que adoecera. No entanto, o patrocinador de tênis das Olimpíadas, a Adidas, falhou para entregar a ele um calçado no tamanho adequado e por isso decidiu correr descalço, como fizera quase toda sua vida. Para ele isso era o natural. Nessa maratona Bikila venceu com um sprint nos últimos 500 m, deixando para trás um dos favoritos da prova, sem saber que era favorito, quebrando o recorde olímpico. Haviam dito a ele para ficar de olho no corredor Rhadi Ben Abdesselam, de número 65. Mas o Rhadi correu com o número 185 e Bikila procurou por ele durante toda a prova, sem saber que estava ao seu lado. Sua vitória emblemática nas ruas de Roma ainda ressoa hoje, inspirando outras gerações a seguir seus passos. A Maratona de Roma de 2010 celebrou os 50 anos da vitória de Bikila, e foi vencida pelo também etíope Siraj Gena, que correu os últimos 300 m descalço, em homenagem ao seu conterrâneo.

Quarenta dias antes da Maratona das Olimpiadas de Tokyo de 1964, Bikila foi operado de apendicite. Contrariando as expectativas, conseguiu se recuperar a tempo e venceu novamente, com novo recorde olímpico, com mais de quatro minutos de vantagem para o segundo colocado. Como era de costume quando terminava uma prova, Bikila imediatamente sentou-se ao chão ao cruzar a linha de chegada e realizou sua rotina de alongamentos. Prioridades são prioridades! Hoje há recomendações que isso não deve ser feito, nem imediatamente antes ou após uma corrida. Há um lindo filme com imagens desta corrida, Tokyo Olimpiad, dirigida pelo japonês Kon Ichikawa. Na minha opinião é uma obra de arte que vale a pena ser vista e revista.

Bikila ainda veio a disputar a Maratona das Olimpíadas do México em 1968, mas teve que abandonar a prova após 17 km por causa de uma lesão no joelho direito. Pouco tempo depois sua carreira como atleta foi encerrada ao envolver-se em um acidente automobilístico em 1969, que o deixou tetraplégico. Depois sua condição melhorou para paraplégico. Ao longo de sua carreira venceu todas as maratonas em que terminou, com a exceção de Boston em 1963. Bikila faleceu em 1973, resultado de uma hemorragia cerebral, uma complicação relacionada ao acidente automobilístico. Certa vez Bikila disse,

Homens de sucesso são confrontados com tragédia. Ganhar as Olimpíadas foi a vontade de Deus, e foi a vontade de Deus que eu me acidentara. Eu aceitei as vitórias assim como aceito essa tragédia. Eu preciso aceitar ambas as circunstâncias como fatos da vida e viver uma vida feliz.

Não sou religioso, mas considero admirável como o Bikila lidou com sua tragédia, com a mesma serenidade com que encantou o mundo ao correr.

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Abebe Bikila descalço na Maratona das Olimpíadas de Roma em 1960. Foto: Central Press/Getty Images

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