Giro dello Espresso


Hoje foi dia de pedalar com o Alírio Seidler, um cara muito forte no pedal. Diria até uma máquina. Ele é deficiente visual, o que significa que quando pedalo com ele é em uma tandem, eu de capitão e ele de fogueiro, o que coloca a lenha ou carvão no forno.

Saímos com a intenção de fazer um pedal leve, talvez com uma subida do Morro da Lagoa. O tempo estava ótimo, ensolarado e não muito quente. O meu joelho direito anda incomodando um pouco por causa das estripulias das últimas semanas, então eu não queria abusar muito.

Saímos do Monte Verde em direção ao João Paulo e após alguns minutos de pedal quase tivemos um acidente quando uma moto que entregava água simplesmente cortou a minha frente e parou. Apliquei os freios bruscamente e por pouco não dou de cara na moto. Nessas horas a gente fica tão estupefato com a imbecilidade humana que quase não há reação. Profanei a loucura do indivíduo e segui adiante.

Ao chegar na Beira Mar Norte alcançamos a Inês, esposa do Alírio, guiada pela filha deles, Alice. Após um breve relato do quase-acidente seguimos adiante, em direção à Beira Mar Sul. Nessa manhã de domingo ensolarada havia um grande número de pedestres, corredores, ciclistas e contempladores.

Havia tempo que não guiava o Alírio, e também um hiato considerável desde o meu último pedal solo-guiado. Seguimos sem incidentes e em relativo silêncio, ocasionalmente interrompido pelo assoviar do Alírio, passando pela estrada geral do Campeche, Morro das Pedras, Armação, até o Pântano do Sul. O Alírio é um exímio assoviador. É capaz de imitar vários pássaros, mas acredito ser a sirene uma de suas imitações prediletas.

O Pântano do Sul era o ponto de retorno planejado, mas decidi esticar até os Açores. Nesse momento tive uma idéia. Perguntei ao Alírio se ele já havia subido o Morro do Sertão. Diante de sua negativa perguntei se ele gostaria de subir o Morro do Sertão. Com o seu aval entusiasmado seguimos. É uma subida difícil que eu já havia feito correndo e de bicicleta estrada. Esta última modalidade eu não recomendo. Até hoje nenhum morro me derrotou, mas eu estava um pouco receoso. Pedalava em uma tandem e não sabia como ela lidaria com a subida íngrime com pedras soltas. Mas decidi arriscar. No pior dos casos engolimos o orgulho e empurramos a bike morro acima.

Logo no início da subida encontramos alguns corredores descendo. Que graça, mas vai lá. Já subiram, merecem. Após uma curva à esquerda fomos confrontados com uma bela de uma rampa e adiante um ciclista empurrava sua bike. Tudo o que eu precisava ver. A vovozinha já estava engatada faz tempo e falei ao Alírio para irmos devagarinho, mas mantendo a cadência. O mais difícil não foi lidar com o aclive, e sim com o terreno irregular, que aliado ao aclive, não perdoa um vacilo sequer. Sem vacilar, pouco a pouco, fomos subindo. As pernas estavam em ordem, o joelho eu não sentia. Ou pelo menos não procurei dar muita atenção para ele. Um Alírio ofegante parou de assoviar. A subida oferece alguns momentos de trégua, interrompidos por um novo aclive, uma nova curva. Em certo momento o Alírio perguntou até onde essa subida iria chegar. Ao céu, Alírio, ao céu. Já o avisara que havia uma descida intermediária, seguida do assalto final. Nesta descida passamos por uma cachoeira e aos brados de loucos vindos de alguns mochileiros e ciclistas continuamos. O pior passara.

O assalto final oferece uma vista maravilhosa da Lagoa do Peri com o Campeche ao fundo. Neste dia de céu límpido essa cena estava esplendorosa. Não pude compartilhar com o meu amigo Alírio, mas com certeza ele apreciou a subida. Mencionou como era bom o silêncio, o som da natureza sem os carros. Fiquei com muita vontade de levá-lo para outros lugares assim, sem carros, com outras subidas acompanhadas da exasperação pelo ar que proporcionam. Anunciei triunfalmente que havíamos chegado ao topo da ilha. Ele requisitou uma foto, com o mar e o Morro do Cambirela ao fundo. Lá encontramos dois ciclistas escoltados por uma SUV. Trocamos figurinhas, fotos, e as sensações de uma manhã tão agradável.

Hora de descer! O momento mais temido. Basta dizer que foram muitos os gritos ouvidos pelos pássaros e outros bichos nessa descida. Em uníssono o Alírio e eu enfaticamente proclamamos a alegria de sentir o corpo acelerar, o vento passando pelo rosto, a adrenalina em nossas veias.  Celebramos o cheiro de freio queimado ao fim da descida.

Sem cerimônia iniciamos o caminho de volta, fazendo duas paradas para um saboroso espresso: um no Campeche e outro na Lagoa. Era o incentivo necessário para fazer a subida final deste memorável pedal e retornar à casa. O Morro da Lagoa veio, mas novamente na descida que vivemos as emoções mais fortes, ao alcançar 70 km/h, aplicando os freios.

O resto foi protocolar. 88 ou 90 km, dependendo do aplicativo, 3h43min de pedal, média de 23,9 km/h. Parece que foi a primeira vez que uma tandem local passou pelo Morro do Sertão. Que venham muitas outras!

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Alirio e eu no Morro do Sertão

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