Scott Jurek – o indomável


Scott Jurek poderia se dizer, é de outro planeta. Um menino franzino que mal conseguia acompanhar os colegas de colégio tornou-se uma lenda da corrida, insuperável em muitos aspectos. As dificuldades da vida forjaram esse menino frágil numa espécie de Deus da corrida, de uma força interior indomável.

Scott foi criado no meio da natureza, no estado americano de Minnessota. Em sua família saídas para caçar, pescar e acampar eram rotineiras. Nesse ambiente Scott começou a correr ainda criança, mas cobrindo distâncias menores.

Quando Scott ainda era jovem sua mãe desenvolveu esclerose múltipla e ele ficou muito próximo dela, conhecendo de forma íntima essa doença devastadora. Como filho mais velho, era responsável pelo cuidado de sua mãe e de outros afazeres da casa enquanto o seu pai estava no trabalho. Eventualmente sua mãe teve que ser internada e o Scott ficou com horas livres que ele ocupava com treinos de corrida.

Em sua primeira participação em uma ultramaratona chegou em segundo, deixando para trás seus colegas que antes zombavam de sua lerdeza. Ele aprendeu a exigir cada vez mais de si, a superar as sensações de cansaço e fadiga. Nesse limiar da dor é que Scott se sobressai dos demais. Aprendeu a abraçar a dor e o desconforto, a ir além quando outros param.

São inúmeras as lendas sobre o Scott Jurek, mas uma das mais famosas é quando ele decidiu participar no Badwater Ultramarathon, no Deserto do Vale da Morte, na Califórnia, considerado por alguns a corrida mais difícil que existe. O percurso cobre 217 km de asfalto em condições Dantescas. Não há outra forma de chegar tão próximo do inferno sem ser um herege. Scott era acostumado às temperaturas amenas e vegetação rica do estado de Minnessota, alheio a esse ambiente inóspito do Vale da Morte. Era sua primeira participação. Com quase 100 km de prova o Scott estava tremendo e vomitando, e colapsou, jogando-se sobre o chão. Lá ficou deitado durante 10 minutos, seus adversários quilômetros à sua frente. Foi nesse momento que ele levantou, voltou a correr e ganhou, quebrando o recorde da prova em sua primeira tentativa, com 24h 36min.

A lista de vitórias na carreira desse ultramaratonista é infindável. E mesmo com todo o sucesso que ele obteve ao longo de sua carreira, continuou fiel às suas origens e sua simplicidade. Desde 1997 sua alimentação é de origem exclusivamente vegetal, por razões éticas. Segundo Scott, esse é um grande diferencial de sua competitividade, tendo escrito inclusive um livro sobre o assunto, “Eat & Run – My Unlikely Journey to Ultramarathon Greatness“. Sugiro a todos essa leitura, independentemente de convicção pessoal sobre o tema. Há muito a ser aprendido desse gigante da corrida.

Para coroar sua carreira impressionante, e ao mesmo tempo celebrar sua aposentadoria do mundo competitivo da corrida, aos 41 anos de idade, Scott completou e quebrou o recorde da Trilha da Cordilheira dos Apalaches. São quase 3500 km de sul a norte, no leste dos Estados Unidos, com 157 mil metros de altitude acumulada. Tudo em 46 dias 8 horas e 7 minutos, melhorando a marca anterior por pouco mais de 3 horas.

São muitas as razões para admirar o Scott Jurek, mas para mim, sua maior virtude é a alegria que demonstra ao correr. Scott é conhecido por soltar gritos de euforia no início das corridas e também por atirar-se ao chão e contorcer-se na terra como um cachorro sarnento quando cruza a linha de chegada. Após isso ele permanece na linha de chegada horas a fio celebrando os demais corredores. Sejamos um pouco mais de Scott Jurek, seremos melhores corredores e pessoas também.

Scott Jurek celebrando o recorde da Trilha da Cordilheira dos Apalaches. Foto de Kit Fox (Runner’s World).

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