Emil Zátopek – o terrível, a locomotiva, mas acima de tudo, um grande ser humano


Emil Zátopek está para o atletismo assim como Pelé para o futebol, Eddy Merckx para o ciclismo e Michael Jordan para o basquete. Pelo menos naquilo que concerne o seu êxito no esporte. Mas Zátopek vai além, pela forma como revolucionou o treinamento das provas de fundo e também pelo grande ser humano que foi.

Zátopek continua como o único a ganhar três medalhas de ouro olímpicas nos eventos dos 5 mil metros, 10 mil metros e a maratona, na mesma Olimpíada, em Helsinque 1952.

Nas Olimpíadas de Helsinque, Zátopek já havia ganho as provas de fundo dos 5 mil e 10 mil metros quando decidiu,  na última hora, competir na maratona, a primeira de sua vida. Sua estratégia foi de correr ao lado do inglês Jim Peters, então recordista mundial da prova. Os primeiros 15 km da prova foram em ritmo forte, e o inglês Peters estava sofrendo. Nesse momento Zátopek perguntou ao Peters o que estava achando da corrida. Um estupefato Peters respondeu que achou que a prova estava “devagar demais”, numa tentativa de induzir Zátopek a quebrar. Nesse momento, Zátopek acelerou, deixou o Peters para trás e quebrou o recorde olímpico.

Um tipo de treinamento muito comum para corredores fundistas são os famigerados tiros intervalados. Pois bem, foi o Zátopek que incorporou este tipo de treinamento intervalado com trotes, inspirado por outro grande fundista da época, o finlandês Paavo Nurmi. À época, acreditava-se que um maratonista tinha que fazer apenas volume de treino. Zátopek disse certa vez:

Por que devo treinar correndo devagar? Eu sei correr devagar, quero aprender a correr rápido.

Em seus treinos ficou famoso por fazer uma série de CINQÜENTA tiros de 400 m, intensidade máxima, pela manhã. Outra pela tarde. Todos os dias, durante duas semanas. Chegava também a treinar carregando sua esposa nos ombros.

Zátopek compartilhava seu conhecimento e métodos com outros corredores. Uma dica muitas vezes dada por ele é a de correr com o polegar e indicador ou dedo médio levemente encostados. Isso ajuda a manter os braços e ombros relaxados, uma característica desejável em provas de fundo.

Zátopek não guardava seus troféus, os doava a familiares, amigos e até estranhos. Talvez um dos episódios mais marcantes foi quando Zátopek, já aposentado das pistas, convidou o australiano Ron Clarke para uma competição em Praga, local de sua residência. Clarke era detentor de vários recordes mundiais, mas nunca conseguiu ganhar o ouro olímpico. Um dia depois da competição, Zátopek levou Clarke para conhecer os pontos turísticos de Praga, enquanto conversavam sobre vários assuntos, a corrida em particular. Naquela tarde Zátopek levou Clarke ao aeroporto, passando pelos guardas e até a subida do avião. Nesse momento sussurrou algo inteligível no ouvido de Clarke e entregou um pequeno pacote, virou as costas e foi embora. Um atônito Clarke não sabia do que se tratava, e com medo de alguma represália, pois estava no bloco comunista, resolveu abrir o pacote em solo inglês. Sem aguentar a curiosidade, quando o avião já sobrevoava o canal inglês, Clarke abriu o pacote para encontrar uma medalha de ouro olímpica, a que Zátopek ganhou na prova dos 10 mil metros em Helsinque. Inscrito na medalha estavam as palavras.

Para Ron Clarke, 19 de Julho de 1966. Não pela nossa amizade, mas porque você merece.

Zátopek encerrou sua carreira em 1957, mas seus feitos e influência perduram até hoje. É uma inspiração para muitas gerações. Para quem quiser saber mais sobre a vida de Zátopek, recomendo o livro “Zá-to-pek! Zá-to-pek! Zá-to-pek! – The Life and Times of the Worlds Greatest Distance Runner”, de Bob Phillips (2002).

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3 pensamentos em “Emil Zátopek – o terrível, a locomotiva, mas acima de tudo, um grande ser humano”

  1. Tem uma frase que está estampada em uma camiseta de corrida que recebi no Circuito Athenas Praia de Belas em Porto Alegre, uma das primeiras provas patrocinadas pela Mizuno em Porto Alegre, que diz:
    “É no limite da dor e do sofrimento que os meninos são separados dos homens.”
    Emil Zátopek

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