Subida ao Morro das Antenas, coincidências, o paradoxo de Zeno, o universo, o amor, e a finitude da vida.


Trabalho em Joinville há seis anos e tenho um colega que mora em Jaraguá do Sul, mas até pouco tempo atrás, não sabia da existência do Morro das Antenas.

De antemão quero deixar claro que acredito em coincidências, na aleatoriedade de eventos. Há um excelente livro sobre o assunto, O Andar do Bêbado – como o acaso determina nossas vidas, do físico americano Leonard Mlodinow. É uma ótima leitura.

Ontem à noite competi em uma prova de 10 km em Joinville. Ainda durante a manhã, havia visto no Facebook que alguns corredores de Jaraguá treinaram no Morro das Antenas. Vi as fotos e achei o máximo! Imaginei que deveria ser uma subida bem longa e fiquei com vontade de fazer.

Antes da largada dos 10 km conversava com um dos técnicos da assessoria esportiva onde corro – A Companhia da Corrida – quando ele mencionou que um pessoal faria um reconhecimento de percurso de uma prova de mountain bike, o Desafio do Morro das Antenas. Olha que coincidência! Fiquei empolgado com a possibilidade de subir esse morro correndo e perguntei se haveria lugar para ir junto. Com vaga confirmada, fui para a largada dos 10 km. Durante o aquecimento encontrei o Hamilton Kravice, um dos corredores que subiu o Morro das Antenas na manhã daquele dia, morador de Jaraguá do Sul. Olha que coincidência!

Com duas coincidências na mão corri os 10 km. Uma corrida que para mim essencialmente consiste em sofrer o máximo que você puder durante trinta e poucos minutos, período durante o qual você sente gosto de sangue na boca e no dia seguinte sua urina também pode ou não conter sangue.

Após uma noite de poucas horas de sono e alguns minutos de preparação, já estava a caminho da Joel Bikes para ir com o pessoal até Jaraguá do Sul, que fica aproximadamente a uma hora de Joinville. O dia estava nublado e frio, não muito promissor.

Ao chegarmos em Jaraguá, ao pé da subida, encontrarmos um grande grupo de ciclistas de várias regiões do estado que vieram também reconhecer o percurso da prova. Eu era o único da turma que não iria pedalar no sentido literal da palavra. Logo estava pronto para correr, pois não queria perder tempo. O meu plano era fazer duas subidas sucessivas ao morro.

Nesse meio tempo eu já havia sido comunicado que a extensão da subida era de 6 km, ao longo dos quais acumulava-se em torno de 800 m de altitude. Isso significava que o bicho ia pegar. Era muito inclinado. Depois vim a saber que é considerado uma das subidas mais difíceis do Brasil.

Comecei a subida, em ritmo moderado. Hoje era um dia para não cometer excessos. Inicialmente a rua é asfaltada, mas bastante íngrime. Logo senti uma dorzinha chata no lado direito do abdomen. Não dei muita bola e continuei. À medida que a subida avança a urbanização fica mais escassa e depois de 1,2 km aproximadamente de subida, inicia-se uma estrada de chão batido. A vegetação é densa e a sensação de paz é muito grande, ocasionalmente interrompida pela passagem de um carro ou moto. Ultrapassei um ciclista de mountain bike e nos cumprimentamos com a exaltação que um pulmão ofegante permite.

São várias curvas, seguidas de trechos curtos e íngremes. Uma pequena trégua no km 3,5 foi uma recompensa bem-vinda. A sensação de estar imerso nas nuvens é única. Sente-se um pouco de frio, mas a serenidade compensa qualquer desconforto.

Emergi das nuvens, pois percebi alguns pedaços de céu azul e a luz de um sol que iniciava seu arco diário no céu. Esse momento é sublime. Há uma sensação de conquista, mas calma lá. Ainda falta. O pior estava por vir.

Ao atingir o quarto quilômetro da subida há um portal que simpaticamente anuncia o morro. Há espaço para estacionar carros e muitas pessoas seguem deste ponto em diante a pé, até o cume. Pela primeira vez pude avistar as antenas. Não pareciam tão longe. Olhei para o meu relógio que marcava quase trinta minutos de corrida. Nossa, até que estou bem. Faltam só dois quilômetros! Os dois quilômetros mais sofridos de subida que eu já fiz. Resoluto em não caminhar, meus passos ficaram mais curtos e frequentes.

É um trecho cruel. Em alguns momentos fraquejei e quase caí pra trás. É preciso muita concentração, pois o asfalto cede lugar a um terreno irregular com pedras soltas. Ultrapassei pedestres e também ciclistas que já empurravam suas bikes. Determinado em seguir até o topo, foram muitas curvas fechadas, subidas que evocavam uma sensação de desespero. Não pode ser. Até quando?

Nesse momento uma paisagem estonteante se apresenta. Um mar de nuvens sob o mais belo céu de brigadeiro. Se sobre essas nuvens sempre vivêssemos, o mundo sob elas seria uma incógnita, assim como as profundezas do oceano em muitos aspectos ainda são. Há muita descoberta potencial naquilo que é oculto.

As antenas e o cume estavam cada vez mais próximos, mas ainda distante. Parecia estar vivendo o Paradoxo de Zeno, de Aquiles e a Tartaruga. O primeiro nunca é capaz de alcançar o segundo, pois à medida que Aquiles  alcança a posição onde estava a tartaruga, esta já avançou, então Aquiles precisa cobrir uma nova distância, mas a tartaruga não está mais lá, e assim ad infinitum. Há uma incoerência no paradoxo, mas cheguei a duvidar da minha lógica. O cume parecia mover-se como a tartaruga de Zeno e eu era o Aquiles, condenado a eternamente perseguir o cume-tartaruga.

Venci o paradoxo! Alcancei o cume. A sensação de euforia era grande e o esforço compensado pela grandiosidade da paisagem que se estendia diante dos meus olhos.

Nesse momento qualquer preocupação com o treino sumiu como a névoa que evapora sob a luz do sol da manhã. Aproveitei para deitar-me sobre a pista de salto de vôo livre. Descansei e respirei profundamente.

Vivo em busca de momentos assim. O dia-a-dia e os compromissos profissionais às vezes nos removem da natureza. Somos feitos do pó das estrelas. Tudo que está à nossa volta foi forjado no calor intenso do núcleo de uma estrela. O universo está dentro de você. Isto é um fato.

Num intervalo tão curto, diante da imensidão que é o tempo, vivemos as nossas vidas. Numa fração de segundo na escala de tempo de existência do universo já não estarei mais aqui como pessoa. É um pensamento que pode evocar tristeza, ou não. Em mim evoca uma vontade muito grande de viver a vida plenamente, com amor por tudo o que faço. Com amor pelas pessoas que me cercam e com quem gostaria de compartilhar a minha vida.

Essa reflexão devo à subida do Morro das Antenas. A descida foi tranquila, de boas.

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3 pensamentos em “Subida ao Morro das Antenas, coincidências, o paradoxo de Zeno, o universo, o amor, e a finitude da vida.”

    1. Que bom que você ouviu! É uma experiência completamente diferente (ler/ouvir). Quando lemos, escutamos a nossa voz interior, mas ao ouvir, você é conduzido no ritmo do narrador. Achei bem interessante esse contraste.

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