O dia em que encarei a Aranha descalço – Mountain Do Costão do Santinho 2016 – 42 km


O despertador tocou às 5:30 da manhã, mas eu já estava acordado há horas. Na verdade mal dormi. Cometi uns excessos culinários na noite anterior e paguei caro. Para o café da manhã comi uma fatia de pão integral de cereais com pasta de amendoim e um pouco de geléia. E também um iogurte. E uma taça de café feito no meu Moka Express da Bialetti, ítem indispensável na cozinha de todo admirador do grão arábica. Para a prova decidi arriscar uma alimentação à base de castanhas de cajú e três géis para o caso de necessidade. Sempre levo cápsulas de sal para afugentar as temidas cãimbras. Saí de casa com uma camisa de manga comprida, com algumas áreas que permitem maior ventilação. O dia não estava tão frio quanto antecipava e isso começou a me preocupar um pouco.

Na noite anterior veio o velho dilema que eu tenho em provas de trilha. Com que tênis vou correr? Então olhei para as minhas huaraches e pensei “É amanhã que corremos numa prova!”. Já vinha correndo com elas em distâncias de até 15 km e desta pouca experiência já sabia que não desempenhavam tão bem em trilhas enlameadas ou tempo molhado. Mas decidi arriscar. A maior preocupação era como iria colocar o chip. Mas isso não foi tão difícil. Para quem não sabe, huaraches são sandálias criadas pelo povo indígena Tarahumara do México, também conhecidos como Rarámuri (aquele que corre rápido). Eles vivem em uma região de cânions com pouca precipitação e a corrida é parte integral de sua cultura. Portanto são sandálias feitas para correr. Há relatos de Tarahumara que correm até 200 km praticamente sem descansar, e não só os jovens correm. Tarahumara de 60 a 70 anos ainda correm diariamente. É um povo quase sem incidências de doenças cardíacas, muito pacíficos e felizes. Conservam seu estilo de vida há mais de 400 anos. Os Tarahumara foram popularizados através do livro “Nascidos para Correr” do jornalista, autor e ultramaratonista Christopher McDougall. Recomendo a corredores e não-corredores. McDougall tem o dom da narrativa e a história por ele contada é fascinante.

Ao chegar no local da prova logo encontrei o embaixador do Loucos por Corrida, Edu Hanada, que correu a prova de 8 km. Edu tem uma prolífica participação em corridas e mantém um blog com relatos de todas as suas provas, “Minha Vida de Corredor.” Fizemos algumas fotos e fui conferir a área da largada.

Sabia de antemão que minhas huaraches iriam chamar a atenção. Mas enfim, usá-las para mim era importante. Quem sabe com isso consigo desmistificar um pouco a necessidade de tênis ultra-especializados para correr. Algumas pessoas observaram meus pés e pediram para tirar fotos. Isso eu não antecipei. Foi uma grande satisfação encontrar o César Zaniboni, fundador do Rarámuri – Cultura do Esporte. Ele não gosta do termo assessoria esportiva, mas também ajuda atletas na preparação para provas de corrida, ciclismo, natação e triathlon. O César olhou pra mim, com numeral no peito, e perguntou se eu iria correr com a camisa. Logo externou sua preocupação com o calor e disse que não recomendaria. Mas eu não tinha outra. Nesse momento ele ofereceu uma camisa tamanho P feminina, era a única que ele tinha. Adoro a camisa dos Rarámuri e topei na hora. Não poderia ser uma combinação melhor, de huaraches e identificado como Rarámuri. Isso significava que também teria que honrar esse povo de corredores exímios.

Aos poucos mais pessoas foram chegando e a hora da largada se aproximava. Cumprimentei o Hamilton Kravice, vencedor da prova no ano passado. Eu havia liderado a prova por praticamente 40 km quando fui ultrapassado no Morro da Aranha. O Hamilton é um corredor especialista em montanha, que reside em Jaraguá do Sul e tem um currículo repleto de muitas conquistas. Apesar de competirmos, a minha admiração por ele é muito grande e sempre desejo que cada um faça a melhor corrida de que é capaz.

Foi dada a largada! Logo o Hamilton e eu nos posicionamos atrás da pickup do diretor da prova. Foi um momento descontraído, com as câmaras apontadas para nosso rostos, e para meus pés. Aproveitei o momento, o vácuo e segui na cola do Hamilton. Minha estratégia era conservar um pouco no início, pois a prova era longa e queria terminar bem. Sabia que nas trilhas o Hamilton iria me deixar para trás. O meu plano era aproveitar as longas extensões de areia para diminuir a diferença.

Assim que saímos da praia voltei a encontrar um cachorro que correu comigo no ano passado. Que alegria amigo! Você por aqui! Nos embrenhamos pela trilha e o Hamilton logo se distanciou. Mas o cachorro parecia me esperar, como se estivesse me incentivando. Desejei muito ter quatro patas. Então sempre que pude e o terreno ficava muito íngrime, recorria às mãos para ajudar na subida, ora agarrando galhos e troncos, ora pedras. Foi uma subida difícil, tentei não me exceder.

Até esse momento estava muito satisfeito com o desempenho das huaraches. Não estava escorregando e a trilha estava em boas condições. Na descida, apesar do cuidado maior que preciso ter ao correr de sandálias, consegui render bem. Ao sair da trilha e novamente chegar à praia do Santinho consegui ver o Hamilton, já uns 400 m à frete. Nossa! Ele já abriu tudo isso? Mas paciência é muito importante para o corredor. Mantive o ritmo e pude ver a distância diminuindo, quando ele entrou novamente na trilha do Resort do Costão. Seguia 100 metros atrás.

Depois de algumas escadas, subidas com muitas raízes e uma descida, corremos em uma região de mata mais fechada, formando uma espécie de túnel verde. Pensei ter passado por uma bifurcação, mas continuei firme. Hamilton já havia desaparecido. Algo me preocupava. Não via mais as tiras brancas sinalizando o percurso. Corri alguns minutos sem ver nada. A dúvida começou a tomar conta de mim. Ouvi a voz do diretor de prova Kiko na minha cabeça: “Se vocês pararem de ver as fitas brancas devem ter errado. O percurso é todo sinalizado.”  Decidi voltar. Depois de correr uns 2 a 3 minutos encontrei dois corredores vindo na minha direção. Debatemos um instante e continuamos por onde eu vinha. Perdi aproximadamente 1 km nesse vai e vem. O Hamilton a essa hora já deveria estar em Marte. Avante!

Ao sair na praia de Moçambique não olhei mais para trás, e quando olhei, não vi ninguém. Consegui reestabelecer alguma vantagem em relação aos corredores que havia encontrado. E assim segui, sem olhar para trás e procurando manter o ritmo. Percorri um longo trecho numa estrada de chão batido paralela à praia e ao chegar próximo a um posto salva-vidas, virei à esquerda para correr na praia novamente. O Hamilton agora era um pálido ponto azul, suspenso num raio de luz, para parafrasear Carl Sagan. O objetivo agora era manter ou abrir a vantagem que havia construído para o terceiro e quarto colocado. Segui na minha toada por infindáveis quilômetros e já conseguia distinguir as pernas e a cabeça do Hamilton. Isso mesmo com lentes de contato vencidas. Quando ele passou por um posto de hidratação eu olhei para o meu relógio. Exatos dois minutos depois passei pelo mesmo local.

Mas as pernas já não respondiam da mesma forma e sentia que essa tarefa iria ficar cada vez mais difícil. Ao chegar na Barra da Lagoa, local do retorno, a diferença se mantinha. Adentramos pela trilhas do Parque Ecológico Rio Vermelho e não conseguia mais sustentar o ritmo. As castanhas eram bem vindas, mas estavam acabando. Era hora de tomar gel. Não gostei. Mas senti que precisava comer. Nos postos de hidratação parei um pouco, bebi água com calma. Gatorade quando tinha. Voltei à praia e cruzava com os corredores da prova de 42 km que vinham em direção oposta. As palavras de incentivo eram muitas. Passei pelo Jacks Sobrinho, correndo descalço. Quem sabe um dia… De volta à estrada de chão estava já sofrendo.

Após um trajeto em forma de U invertido, com bastante duna e areia fofa, voltei à praia e avistei o Morro da Aranha. Odeio aranhas! Momentos antes o terceiro lugar acabara de me ultrapassar. Herdei a colocação. O começo da trilha é um paredão, e lá debaixo via os corredores dos 21 km enfileirados em uma procissão digna de um formigueiro. Lama. Muita lama. Mais lama. Eu já disse que havia lama?

Meus pés escorregavam dentro das huaraches e as tiras de velcro estava afrouxando. Uma soltou. Parei para prender. Mas o velcro estava tão sujo que sua eficácia era mínima. Estava mais para corrida Bravus do que qualquer outra coisa. Resolvi virar o Jacks. Aposentei as huaraches e me tornei Barefoot Ted (de Nascidos para Correr). Huaraches na mão, sangue nos olhos e faca nos dentes. Pelo menos era assim que me via, mas provavelmente parecia um Zumbi mesmo. E não é que eu gostei? Achei que iria doer mais, que eu iria ter medo de pisar. Logo o medo diminuiu e fui ficando mais confiante. Comecei a ultrapassar o pessoal dos 21 km. Com licença, bip-bip. Com licença. Obrigado!

Quando consegui vislumbrar o fim da trilha fui alcançado por um corredor dos 42 km, o quarto lugar. Por alguns minutos corremos e não me identifiquei como corredor dos 42 km. Pensei que se talvez, assim, de repente, se ele não me ultrapassava na trilha eu iria lutar e muito no terreno mais plano. Mas logo começou a pedir licença. Abri e deixei ele passar. Herdei o quarto lugar.

E a trilha chegou ao fim, não antes de eu sentar e colocar novamente as  huaraches. Meus pés estavam com bolhas abertas. Os maltratei e agora o terreno era de cimento e pedra.

Tropecei e quase fui ao chão a um metro da chegada. Esse detalhe não poderia faltar. Senti uma emoção diferente ao cruzar a linha de chegada dessa vez. Estava mais emotivo. Foi uma prova difícil, tive que lidar com meu erro e as dificuldades da trilha do Morro da Aranha. Comecei bem e perdi 3 posições. Mas estava feliz, o dia foi lindo e acumulei mais memórias de uma corrida épica, o dia em que eu encarei a Aranha descalço.

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Crédito: Foco Radical, por Christian Schmidt Mendes

2 pensamentos em “O dia em que encarei a Aranha descalço – Mountain Do Costão do Santinho 2016 – 42 km”

  1. Não é só o Chris que tem o dom da narrativa Juan, você se saiu muito bem, talvez até melhor do que na prova. Brincadeira! Parabéns por completar mais uma prova e super bem colocado. Se tivesse me perguntado, diria que as huaraches deveriam ficar para o pós prova. Se às vezes acabamos deixando o tênis, muito bem amarrado aos pés, sozinhos, entrincheirados no barro, ao puxarmos a perna, de sandálias então, era um abraço para a lama. Estou pensando aqui em qual será a próxima aventura desse Tarahumara tupiniquim. Abraço “mô quiridu”.

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